A direita e os passes sociais

(Por Estátua de Sal, 18/03/2019)

António Costa e os passes sociais


Falando no final da cerimónia que juntou Governo e presidentes dos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) para a assinatura dos contratos que criam um passe único no valor máximo de 40 euros para todos os concelhos da AML, o líder socialista prometeu para abril “a maior revolução nos transportes coletivos desde que os passes sociais foram criados, nos anos 70”. (Ver notícia aqui).

A direita anda em polvorosa e o comentador de serviço, Marques Mendes, disse ontem na sua prédica dominical tratar-se de uma bomba eleitoral.

Na verdade, abrangendo as áreas metropolitanas onde se concentra a maior parte do eleitorado – e sobretudo do eleitorado urbano onde a volatilidade de voto é mais significativa -, a medida, que vai originar um alívio importante no orçamento de muitas famílias, terá seguramente um impacto, talvez considerável, sobre a orientação de voto de muitos nas eleições que se avizinham.

É por isso que a direita está assustada e temerosa, acusando o Governo e o PS de eleitoralismo.

Ora, aquilo que a direita não faz é discutir a utilidade e a bondade da medida. Sobre isso, silêncio absoluto. Mas, é óbvio que a medida só pode ser boa para milhares de cidadãos, porque se não fosse boa a direita criticá-la-ia a pés juntos e não temeria que ela tivesse um efeito eleitoral benéfico para o Governo.

É claro que o timing do seu anúncio e entrada em funcionamento não são estranhos ao calendário eleitoral. Todos os governantes usam das mesmas tácticas. Mas, ao menos, que apresentem medidas verdadeiras e efectivas, não recorrendo a truques falaciosos como fez o governo de Passos Coelho em 2015 com a promessa da devolução da sobretaxa IRS, promessa que não passava de uma mistificação.

É nesse contexto que o Governo e o PS não devem ter qualquer pejo em ser eleitoralistas, desde que apresentem boas medidas. Os portugueses estão-se nas tintas para as lágrimas e as acusações do Marques Mendes. Querem é ver as suas condições de vida a melhorar e apoiam todas as acções que para tal contribuam.

Assim, que venham mais medidas desse jaez, eleitoralistas ou não, que os cidadãos agradecem. A única coisa que os eleitores podem lamentar é o facto de apenas haver eleições de quatro em quatro anos, só surgindo algumas benesses nas vésperas dos actos eleitorais. Mas isso faz parte da lógica dos ciclos políticos da democracia representativa. E, como diz o povo, mais vale tarde que nunca.


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Porquê as mulheres?

(Isabel do Carmo, in Público, 14/03/2019)

Isabel do Carmo

Por que é que são as mulheres espancadas, algumas até à morte, ameaçadas, assediadas, sobrecarregadas com trabalho doméstico, ganham menos desempenhando as mesmas funções, vivem na sombra? Porque vivemos numa sociedade patriarcal hierarquizada. Os casos extremos são a ponta do iceberg. É uma questão de poder e é também o quotidiano que temos que discutir, para pôr ao sol o que parece subtil ou insignificante. Dar testemunho é um dever.

Participei na avaliação das consequências físicas do inquérito de prevalência de violência sobre mulheres (Manuel Lisboa, 2006). Algumas ousavam revelar lesões, arranhões, encontrões, hematomas, torções. As que tinham sofrido fracturas tinham ido ao hospital. Quase todas “porque tinham caído na escada” na declaração feita à entrada da urgência. Não sabemos os comentários que aí as acolheriam se dissessem o verdadeiro motivo.

Há portanto aqui uma escala, em que o assassinato emerge como caso extremo e sinal de alarme. No entanto, sei o que ouço nas minhas consultas clínicas, e por dever de médico, pergunto o que é que se passa “lá em casa”, para além das queixas que são motivo da consulta. O que ouço também é uma escala. Há as que se queixam que os maridos são uns “brutamontes”, dos quais nunca se separaram porque não tinham condições para isso. E há aquelas, muitas, a quem o marido “levanta a mão”, entra em cólera e impede qualquer conversa sobre razões conflituosas. Enfim, uma relação de maior força física e de poder que regula a relação doméstica.

Estes homens já foram crianças que assistiram a espancamentos ou a simples empurrões ou cóleras exercidas sobre a mãe, para eles “naturais”, assimilados, interiorizados. Foram crianças elas próprias espancadas pelos pais e educadas a reguadas na escola pública. Ou que, mais elegantemente, levaram “uns açoites” ou umas “palmadas que não fazem mal a ninguém”, exercidas pelas mães, subjugadas pelo patamar de cima. A escala do poder foi pois “natural” e interiorizada, o comportamento e o impulso nem são interrogados.

Este ambiente foi o mesmo em que viveram ou vivem polícias e juízes, para só falar nos que têm que exercer autoridade e decidir. É pois necessário meter a mão naquilo que é a vida privada, a vida quotidiana, sem ter medo de ferir susceptibilidades. Mas também sem considerar os homens como inimigos das mulheres ou dizer que “são todos iguais”. A par das histórias dramáticas e sobretudo tristes que ouço, também testemunho muitos casos de casais de muitos anos, verdadeiros companheiros solidários e jovens rapazes que partilham com alegria os cuidados dos filhos e da casa, o que nos dá esperança para o futuro.

Mas a maior parte das vezes em que pergunto sobre as tarefas domésticas, as mulheres descrevem um quotidiano em que fazem quase tudo. Nos casos mais simpáticos ele “ajuda”. Ele “ajuda” e ela até fica agradecida, como se fosse a vizinha do lado, prestável, que a ajudasse. E não a pessoa que tem os mesmos filhos e vai utilizar os mesmos objectos, a mesma roupa e comer a mesma comida que ela, que tem os mesmos horários e os mesmos transportes. Pôr em questão estes problemas relacionados com a sociedade patriarcal e com estas relações de poder não é coisa fácil e atravessa classes sociais e ideologias. Indignação perante um assassinato é uma coisa, mexer nas relações do quotidiano é outra. Infelizmente, a primeira tem que servir para trazermos à luz do dia aquilo que está oculto.

Podemos lembrar as concepções ditas machistas que emergiram a seguir ao 25 de Abril e durante o processo revolucionário. Iam muito além dos tradicionalistas e conservadores e atravessavam os politicamente à esquerda, que se diziam “chefes de família”, respeitavam as suas “esposas”, mas tinham uma vida hipócrita tal como o papa Francisco descreve para os habitantes do Vaticano — moralistas para fora, “pecadores” para dentro. Aliás, homem que tinha “casos por fora” até era engraçado, sinal de virilidade, mas as mulheres tinham que ser “sérias”, “honradas”. Considerar “histéricos” os protestos contra a estrutura machista da sociedade veio até agora.

Só há poucos anos vou a sessões do dia 8 de Março com alguma tranquilidade, pois durante muitas comemorações fui objecto de provocações e tentativas de desacato, as quais foram provocadas por personagens insuspeitos. Numa, um militar muito radical interrompia e queria provar que os homens é que eram vítimas das mulheres. Noutra, uma jovem mulher dizia que estas questões da mulher não deviam ser levantadas porque quando a sociedade mudasse elas ficavam resolvidas, o que desde já se provava pelo facto de no partido dela não haver discriminação de sexos. Noutra, numa sessão da Ler Devagar, uma “feminista” vestida à homem contestava violentamente que estivéssemos a exibir um belo filme, Curvas Graciosas, onde se mostravam as formas próprias das mulheres novas e velhas, muito para além do estereotipado. Todos estes casos foram provocações premeditadas e destinadas a acabar com a sessão, em locais considerados “abertos” e com frequentadores habituais.

Evoco, todavia, também como janela de esperança, o caso de um adolescente, numa escola que servia o Vale da Amoreira, no Barreiro, que numa dessas sessões me colocou uma verdadeira questão: ser ou não verdade que se for o homem a estar desempregado e a fazer tarefas domésticas se sente mais humilhado do que se for o inverso. Foi há poucos anos, estávamos e estamos ainda muito na infância da discussão do quotidiano. Quando estou numa reunião, seja política, seja institucional, seja profissional, com homens e mulheres, proponho sempre que quem fale o faça pedindo a palavra ou, muito melhor, dando a volta à mesa. Porque se não for assim… já sei quem vai falar primeiro, mais alto e a sobrepor-se. E quantas vezes em reuniões sociais vemos as mulheres entrarem e saírem caladas porque “onde há galos não cantam galinhas”. E não evoquemos as excepções para provar o contrário, porque são mesmo excepções conseguidas a custo!

Aprofundando mais ainda os sinais e observando a linguagem, não se poderá reflectir sobre a expressão de insulto “filho da p…”? Não considero que a prática da prostituição seja uma profissão, também não considero que seja crime ou delito e conheço o sofrimento que acarreta. O que sei é que as mulheres que a praticam e os filhos delas são tão dignos de consideração como qualquer cidadão.

O insulto é mal escolhido. Indo mais longe: o que é que queremos dizer com a expressão agressiva “fuck you” nos vários idiomas? Falocrático, não é? Com isto não quero fazer qualquer campanha moralista contra os palavrões e até aprecio a poesia erótica de José Maria do Bocage, que os empregou na verdadeira acepção. O que quero mostrar é que esta sociedade está cheia de sinais que vão da linguagem banal, à ordem “natural” do quotidiano, público e privado, passando dos pequenos gestos ameaçadores até grandes gestos. Para finalmente emergir em crimes baixos que fazem tocar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.


O populismo alt-right à portuguesa e a justiça

(Pedro Marques Lopes, in DN, 16/03/219)

Pedro Marques Lopes

Alguns cidadãos, albergados no projeto político Observador, viram no clamor público contra Neto de Moura uma campanha encapotada contra a justiça. A coisa foi um bocadinho disfarçada, mas não muito. Escreveu-se e disse-se que sim, claro, que o que o ainda juiz escreveu era inaceitável, mas – e na adversativa estava a mensagem essencial – que os ataques de que foi alvo visavam o edifício judicial. Todas as pessoas que não estão envolvidas diretamente no processo político (humoristas, atores e comentadores de jornais) e que se insurgiram contra Neto de Moura foram tratadas por idiotas úteis. Os outros fazem parte duma conspiração sinistra contra a justiça.

O discurso não é o novo, é aliás repetido incessantemente. A justiça está sob ataque porque está a pôr em causa uma entidade vaga que o ativista Rui Ramos, toda a santa semana, trata como oligarquia. Um grupo de gente que inclui a classe política, mediática e económica (pôr neste rol o poder económico e ser um dos líderes Observador revela ou que não conhece os pagadores do projeto ou, digamos assim, um bocadinho de falta de vergonha). Ou seja, todos menos os que não estão no projeto político Observador. Uma espécie de dragão que terá de ser combatido por um São Jorge que os homens do Observadoresperam ansiosos . No entretanto, tentam melhorar, no pior sentido, as condições para que ele surja – e, infelizmente, elas existem.

Este tipo de narrativas e de movimentos já não são novidade para ninguém. Escolhe-se um conjunto de pessoas – a tal oligarquia, neste caso – e atira-se para cima dele todos os problemas que uma comunidade enfrenta. É o populismo em todo o seu esplendor: explicações simplistas para problemas complexos. Os emigrantes que destroem a segurança social e que espalham o crime, os corruptos que bloqueiam o país e o seu desenvolvimento, o suposto imperialismo americano, etc., etc. A face visível do discurso político é uma, apela aos instintos mais básicos, baseia-se em mentiras descaradas e é sistematicamente repetido. A agenda real vem escondida – e essa varia segundo a orientação política do movimento. A aparente sofisticação do discurso da alt-right Observador não é mais do que populismo puro e duro.

Não é em vão que esta gente insiste que a justiça está sob ataque. Alguns setores do poder judicial também embarcaram numa espécie de cruzada populista contra os “ricos e poderosos”, não hesitando em violar princípios básicos e direitos fundamentais em função de valores que eles definiram como superiores. Não faltam documentos de associações de profissionais da justiça que clamam a necessidade de a justiça combater o sistema, de o moralizar, de fazer uma limpeza ética.

Também não foi por qualquer preocupação com o bom funcionamento da justiça que o Observador fez uma campanha tão violenta a favor da continuação de Joana Marques Vidal (que simplesmente serviu de arma de arremesso nesta guerra e até por um ex-primeiro-ministro que fez uma tristíssima figura e mostrou uma falha imperdoável de sentido de Estado) ou que põe em causa de forma sistemática o trabalho do juiz Ivo Rosa. O objetivo é sempre o mesmo: fazer de alguma justiça uma aliada no combate que estão a travar. Para tal, não hesitam em fazer passar a ideia de que a independência do poder judicial está em causa e que a tal oligarquia está a tentar controlar o edifício judicial. A tentativa de instrumentalização é descarada, o desprezo pela estabilidade do funcionamento dos órgãos de soberania é desprezada. Na linha da velha extrema-esquerda vale tudo para atingir os objetivos. Uma variante da destruição criativa.

Os propósitos finais dos dois grupos são diferentes, mas, neste momento, coincidem: descredibilizar o poder político e dar a ideia de que há uma conspiração e que o poder judicial é o último bastião de defesa.

Não surpreende também que Rui Rio seja apontado a dedo como o campeão da luta contra a justiça e, em consequência, o símbolo da oligarquia. Não é de agora que o presidente do PSD fala dos problemas da justiça. Tem, verdade seja dita, dentro da classe política um histórico de denúncia do seu evidente mau funcionamento que não é feito em função de interesses políticos de ocasião. É, aliás, dos pouquíssimos políticos que têm tido coragem para falar deste tema desassombradamente e sem medo de perder popularidade.

Rui Rio é o político que mais interessa a esta alt-right populista destruir. É ele que eles julgam estar a impedir a tomada do PSD que tanto desejam (estão enganados porém, nunca esta linha conquistará o PSD). Nada, mais uma vez, que ver com justiça.

Desengane-se quem pensa que existe alguma preocupação com o bom funcionamento da justiça das pessoas que disseram que os ataques a Neto de Moura visavam pôr em causa a independência do poder judicial. Mais, são exatamente estes que mais desejam que os claros problemas que afetam o setor continuem a existir e se agravem. Tudo o que possa contribuir para o caos lhes interessa. São assim os populistas.


A lei de Vítor Melícias

Já se sabe que Vítor Melícias é um frade franciscano muito dado a causas terrenas. Nada a opor, claro está. Mas dado o seu convívio tão íntimo com as questões deste mundo e com os corredores do poder, apetece lembrar-lhe que não é ele que faz as leis nem é ele que define quais são as que se devem respeitar. Mas como tenho poucas dúvidas de que ele sabe perfeitamente o que é o Estado de direito e que a lei é para ser respeitada e que obriga tanto padres como presidentes de bancos e até secretariozecos, resta perguntar quem pensa ele que é para achar que os seus amigos estão acima da lei? Esta causa terrena vale assim tanto?


Viva o Ricky Gervais

Há uns anos, um tipo, durante um jantar, estava a dizer mal do Extras II. Do outro lado da mesa, um cidadão, claramente furioso, berrava que a série era fabulosa, que o Ricky Gervais era um absoluto génio e que qualquer pessoa que discordasse merecia ver ininterruptamente os Malucos do Riso com a participação especial do Badaró. Foi um momento muito constrangedor por duas razões. A primeira, é que o indivíduo que parecia enlouquecido de amor pelo Ricky ainda não tinha visto a série; a segunda, é que esse tipo era eu.

É este o tipo de fã que sou do Gervais, e tenho boas razões para isso. O Office, o Extras I e II e o Derek são absolutamente geniais. Mas há mais, o An Idiot Abroad, o Life Is Too Short, as longas-metragens, os shows de rádio, as apresentações nas cerimónias dos Óscares e nos Globos de Ouro, etc., etc. é tudo excelente. A verdade é que até as coisas menos boas do inglês são ótimas.

Agora, para a Netflix, o Ricky Gervais fez uma série que fica ao lado ou mesmo transcende o melhor que já tinha feito. Chama-se After Life e não pode deixar de ser vista. Fala das nossas fraquezas, da nossa fragilidade, dos nossos medos e anseios. Fala de nós.

É uma história sobre a vitória da bondade (como sempre no Gervais) e de redenção, contada com o seu fantástico humor e o seu imenso amor pela humanidade.