A próxima batalha no PSD

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 19/01/2019)

pml

Pedro Marques Lopes

Um dos argumentos mais descabidos que ouvi para que existissem eleições antecipadas no PSD foi o de que isso conduziria a uma clarificação.

Presumo que com isso se quereria dizer que, de facto, neste momento, os militantes do PSD deveriam diretamente dizer se queriam Rui Rio ou Luís Montenegro ou outro qualquer como presidente do partido.

Esqueçamos, por agora, que estamos a quatro meses de umas eleições europeias e a oito das legislativas e que um processo desses faria que de manhã se estivesse a fazer campanha para essas eleições e de tarde para a liderança do PSD.

O que convém lembrar é que o líder do partido foi eleito há um ano e que o partido ainda não disputou nem uma eleição desde essa data. Quem acha que Rui Rio devia convocar diretas pensa, por imperativo de coerência, que um primeiro-ministro devia convocar eleições gerais se um líder da oposição pensasse que ele não estaria a conduzir o país no sentido que achasse certo e havendo sondagens que indicassem um défice de popularidade.

O Conselho Nacional de passada quinta-feira serviu para mostrar que os militantes através dos seus representantes estão maioritariamente com Rui Rio, o que não sendo pouco apenas servirá para pacificar uma ala oposicionista, mas não evitará a continuação de uma guerra sem quartel de outra.

Se tenho poucas dúvidas de que Luís Montenegro até às próximas eleições permanecerá em silêncio e até se empenhará na campanha, há um grupo de militantes que não parará com a campanha contra o líder e fará os possíveis e os impossíveis para que o PSD tenha o pior resultado possível.

Aliás, se a hipótese de que o repto extemporâneo de Montenegro tinha tido apenas o objetivo de marcar terreno, mais claro ficou no discurso pós-derrota de ontem. Ficou agora claro que foi mais uma manobra para afastar outros opositores internos no futuro do que propriamente vontade de derrubar Rui Rio. Uma forma de dizer, na eventualidade de maus resultados eleitorais, “muita gente protestou, mas fui eu que avancei”. Como se os resultados forem satisfatórios, vai argumentar que o seu passo serviu para acordar o partido.

Os próprios resultados do Conselho Nacional assim o mostraram. É difícil pensar que um homem com a experiência política do ex-líder da bancada parlamentar social-democrata não soubesse que Rio não convocaria diretas. E que assim sendo não tivesse garantido um conjunto de apoios no Conselho Nacional que, pelo menos, lhe desse uma hipótese de poder convocar o sufrágio.

A afirmação de que mantém as divergências estratégicas (ainda não se percebeu bem quais são e em que áreas ou políticas) com Rui Rio e o “acordei um gigante adormecido” foram evidentes das intenções futuras de Montenegro.

A diferença entre Luís Montenegro e o grupo da alt-right à portuguesa é que o homem de Espinho, se chegasse a presidente do PSD, não o quereria transformar num projeto de extrema-direita soft nem, se nunca chegar à liderança, quererá destruir o partido. Para os Bannons lusos daria muito jeito conquistar uma estrutura montada e com muitos votos assegurados, não o conseguindo o PSD será um empecilho à sua estratégia e tratarão de o tentar fazer implodir. Tem de se reconhecer que têm feito um bom trabalho e tido até um apoio precioso de muita gente que está muito longe de secundar esta estratégia destrutiva. Montenegro, não há dúvida, ajudou.

Esta vitória de Rui Rio não deixa grandes dúvidas sobre a composição da próxima lista de deputados do PSD à Assembleia da República. Claro que a alt-right que se colou ao PSD vai fazer os possíveis e os impossíveis para que as eleições europeias sejam uma catástrofe para o partido e que ainda possa haver uma revolução antes das legislativas, mas esse cenário é praticamente impossível. O palco principal que essa alt-right que se colou ao PSD tinha vai-lhes fugir. São eles os grandes derrotados neste processo: nem marcaram terreno para o futuro nem conseguirão manter os seus bastiões no Parlamento. Manterão o seu órgão de comunicacional oficial, mas a capacidade de chegar aos militantes e votantes habituais do PSD vai diminuir muito. Se agora, sendo deputados, podem sempre argumentar que representam os eleitores sociais-democratas e podem afirmar as suas posições contra a direção do partido, sem esse respaldo a mensagem chegará com muito menos intensidade. Sobra-lhes um último recurso quando deixarem de ter palco, trazer o homem que os levou para o partido e lhes deu poder: resta-lhes Pedro Passos Coelho.

Justiça

Depois de um processo que durou onze anos, Armando Vara foi para a prisão.

Tenho muitas dúvidas sobre a adequação da pena aos factos efetivamente provados, bem como à qualificação jurídica de algumas ações do ex-governante, mas foi assim que as várias instâncias judiciais decidiram e, com certeza, estão convictas de que fizeram justiça.

Não sou dos que pensam que o nosso sistema jurídico penal é excessivamente garantista. Em face dos constantes graves atropelos aos direitos fundamentais de arguidos ou simples suspeitos, não estou disposto a abdicar de um milímetro das minhas garantias constitucionais. Pelo contrário, penso até que em muitos casos deve haver um reforço dessas garantias.

Uma justiça, no entanto, que leva onze anos a condenar alguém não faz justiça nenhuma. E não me venham com garantismos nem meios garantismos, é simplesmente péssimo funcionamento.

Talvez se alguns elementos da justiça se concentrassem em investigar e acusar condutas definidas e se deixassem de megaprocessos para vender a ideia de que são os defensores da democracia contra uma conspiração de políticos e “poderosos” as coisas corressem melhor.

Vá ao teatro

O nosso teatro vive as dificuldades normais de um país pobre, com níveis altos de iliteracia, pouco qualificado e com uma educação que despreza a expressão artística. O que falta, porém, em meios e apoios sobra em talento e, sobretudo, em vontade e amor ao teatro de quem dele faz a sua vida.

Nas duas últimas semanas vi duas magníficas peças. Uma no Teatro Aberto e outra no Teatro do Bairro. O Novo Grupo do João Lourenço tem em cena na Sala Vermelha A Verdade e, na Azul, A Mentira. Já vi A Mentira e só consigo explicar a falta de filas de pessoas para ver o espetáculo que cheguem ao Rossio por mera falta de publicidade. Nesta semana, fui ao Teatro do Bairro para ver a encenação de Muito Barulho por nada e podia dizer exatamente o mesmo – além de que vi um dos melhores Beneditos de que tenho memória.

Não tenho dúvidas de que muitas mais e excelentes peças andam por Lisboa e pelo resto do país.

Sendo verdade que as salas andam muito bem compostas, é ainda mais verdade que a qualidade dos espetáculos merecia ainda mais gente. Vá ao teatro, você merece.

Advertisements

Uma vitória de Pirro?

(Luís Alves de Fraga, 18/01/2019)

rio_ganha

Rui Rio saiu vencedor no resultado da votação da moção de confiança apresentada. Mas, parece-me, é uma vitória de Pirro. Vejamos em que tipo de raciocínio me apoio para dizer tal.

O simples facto de Luís Montenegro Esteves ter desafiado Rui Rio foi, como disse há dias, a demonstração de que já não há um só PSD, mas sim dois: um, o da velha guarda, ou seja, ainda imbuído do espírito fundador, e, outro, claramente influenciado pelas novas gerações, que vêem no partido um “caminho” para o neoliberalismo. Passos Coelho abriu essa porta.

O facto de António Costa ter aceite o apoio parlamentar do PCP e do BE, abriu, também, uma nova era na política nacional. Tratava-se do único caminho possível depois de José Sócrates. As esperanças que depositei em António José Seguro foram vãs, pois este não teve a coragem política de dar o “salto” para o entendimento à esquerda.

O “velho” PSD dos Balsemão e outros do mesmo quilate foi ultrapassado pela “geringonça”, porque esta está a fazer a política que os “barões” de antanho poderiam levar a cabo depois de Passos Coelho.

Santana Lopes deu o sinal de desmembramento, fazendo outro partido, que não admite entendimentos nem com o PS e muito menos com o PCP.
O que resta à ala menos conservadora do PSD – aquela que poderia chamar de passista – é sair ou para a Aliança de Lopes ou formar mais um novo partido.

Ora, em face deste panorama – perfeitamente possível de se tornar real em curto espaço de tempo – posso dizer que estamos num momento de grande viragem ideológica dos partidos políticos: o PS, depois da experiência da “geringonça” não vai voltar a ser o mesmo, dado que perdeu o medo da “outra” esquerda; o PCP também não vai voltar a ser o que foi – julgo mesmo, haverá uma natural tendência para sofrer fortes erosões, que o poderão, a médio prazo, levar à agonia, por transferência do eleitorado jovem para o BE, o qual, também ele, no plano ideológico, será diferente daquilo que ainda é. Mas, o maior ajuste, a maior modificação, segundo penso, acontecerá à direita. O PSD vai começar a perder eleitorado, que procurará reflectir o seu voto e vontade política nos partidos mais definidos e identificados com o capitalismo global e, eventualmente, com algumas franjas de populismo. O CDS terá de procurar o seu lugar ideológico.

Curiosamente, embora saiba que a História não se repete, acho que a intervenção da Troika e a afanosa atividade de Passos Coelho em “libertar” o país de algumas das suas empresas mais estratégicas – quatro anos de duração – têm equivalente aos quatro anos da Primeira Grande Guerra, os quais fizeram desaparecer do quadro político nacional os tradicionais três partidos republicanos para dar lugar a uma miríade sem um rumo bem definido do ponto de vista ideológicos, gerando, deste modo, o desequilíbrio que desaguou na ditadura militar de 28 de Maio de 1926, originando a ditadura de Salazar.

O descalabro europeu, do ponto de vista político, que se avizinha não vai criar o melhor contexto para a mudança em Portugal. Penso que, daqui para a frente, começando já nas primeiras eleições, o alinhamento vai ser diferente, gerador de uma angústia e intranquilidade nos portugueses conscientes do que podem esperar da União Europeia e do capitalismo global que nos submerge.

O Deputado de Aveiro

(Virgínia da Silva Veiga, 17/01/2019)

aveiro_monte

Há um pormenor que me não canso de lembrar: Luís Montenegro, esse todo, é o nosso deputado por Aveiro. O PSD foi o partido mais votado nas últimas legislativas neste distrito e o cabeça de lista foi exactamente este mesmo indivíduo.

Daqui se deveriam tirar duas simples conclusões. A primeira delas é que nada tendo feito por Aveiro nada se esperava fizesse pelo País. Mas. é conclusão demasiado simplista, porque pelo país fez: ajudou a vender a pataco os nossos sectores estratégicos enquanto aumentava a dívida pública e permanecíamos devedores ao FMI. Lá se foi a nossa esperança de independência energética, os nossos lucrativos CTT, o nosso emblemático, e igualmente lucrativo, Oceanário, concessionado, e até a desgraçada TAP ia indo pelo cano da falta de visão estratégica, para não lhe chamar outros nomes.

A segunda conclusão, mais fácil, tira-se das afirmações que então fez, quando assumiu esse papel de liderar Aveiro: a nova direcção do PSD de então varreu 40% dos antigos militantes das listas para deputados e instalou os que se viram de que ele próprio é exemplo. Gabou-se então disso. Pode ouvir-se ainda, numa simples pesquisa na net.

Aí têm o retrato do nosso deputado que hoje se apresenta a instalar a confusão na política nacional e, logo, na estabilidade que nos tem feito ser emblema internacional.

Montenegro, o nosso deputado, o que os aveirenses escolheram como melhor de todos, tem o comportamento das aves de rapina que sobrevoam os céus em voo onde os distraídos não notam a postura de ataque. A qualquer momento, descem em voo picado e cravam garras em presa a abater. Alimentam-se dos incautos que quando se apercebem já estão esventrados.

O deputado aveirense teve ocasião de se candidatar a líder do PSD. Não se candidatou. Nas conjecturas possíveis de quem assiste ao que vê, tudo aponta para um cenário com tanto de plausível como de conjectura: sabedor de que a geringonça pusera a nu a espoliação feita aos portugueses e a Portugal, sem disso haver necessidade, como a prática demonstrou, do alto do tal voo planado, caladas as gargalhadas sobre Centeno, percebeu que talvez pudesse concorrer contra Rio mas nunca ganharia eleições nacionais.

Seria um líder a prazo. Foi então que surgiu Santana, vindo do que, a léguas, cheirou a acordo entre ambos. Santana ganharia a Rio, protagonizava os desastres eleitorais que as sondagens apontavam, Montenegro viria depois como salvador. Combinação perfeita.

Deram com presa velha. Apesar do sotaque e o estilo pouco dado a favorecer os media, Rio venceu. Caldo entornado.

Montenegro tinha agora que esperar as derrotas eleitorais que as sondagens fazem crer. E foi aí que entrou um factor com o qual não contava: Santana, ao tempo que cerrava as fileiras contra Rio, foi-se apercebendo de não precisar de Montenegro para nada. Formou um partido.

E agora, Luís? Agora o mal até nem seria por aí além. Santana ajudaria a diminuir ainda mais os resultados de Rio, do PSD. Nem era pior. E eis que os estudos revelam outra surpresa: apesar do homem do Norte não enfileirar por estilos liberais, o PSD resulta na última sondagem, isolado do CDS, com um número que, somado ao atribuído ao partido de Santana, num cenário em todo favorável ao PS, resultava, afinal em qualquer coisa entre os 28 e os 30%. Porque é esse o resultado da última sondagem, se bem lido e melhor analisado.

Afinal, fala-se tanto em saber quem são os deputados da nossa terra, aí têm um. Rio, ainda sem ir a debates eleitorais nem mostrar os candidatos, afinal não estava a deixar o PSD moribundo. Era, portanto, necessário sair rapidamente à ribalta com um discurso que minimizasse o líder.

Estávamos nesta parte do filme quando surge no horizonte outra ave de arribação com a qual Montenegro já não contava: Pedro Passos Coelho disposto a recandidatar-se. Montenegro vê esvairem-se todas as tão bem pensadas estratégias, não tem outro remédio senão avançar imediatamente, ainda que em plena pré-campanha para as europeias. Um aborrecimento.

E aí está ele no ponto de onde nunca saiu: tentar conquistar o PSD e transformá-lo ao gosto liberal dos seus apoiantes Hugo Soares, Paula Teixeira da Cruz, Maria Luís Albuquerque. Na ribalta da penumbra, Marco António Costa e Miguel Relvas. Montenegro é um estratega, um calculista. Rio – aí é que está – não é um menino de coro. O PS do Porto que o diga.

Não incomodou a Rio a purga de Santana, até agradeceu, porque viu à légua que o PSD tinha um palácio construído e andavam a decorá-lo com janelas de alumínio, nada a condizer com o ancestral tom da casa. Liberais para um lado, sociais-democratas para o outro e siga que o caminho sempre se fez caminhando, foi a estratégia adoptada por um Rui Rio – ele o disse – mais favorável em fazer entrar mais militantes do que incomodar-se com os que saiam por se não reverem na linha fundacional.

E é a isto que os portugueses hoje vão começar a assistir e que se resume a uma simples pergunta: o PSD vai regressar à linha de origem, a que lhe deu vitórias, ou será um dos cinco partidos liberais que se vão candidatar às próximas legislativas?

Aguarda-se para ver. Como o candidato aveirense ajudou a desgraçar a classe média e ameaça voltar a mais do mesmo, escuso de dizer o que penso. É um colega. Não esqueço isso como nada esqueço sobre o ex-presidente da Câmara do Porto.

Lê-se por aí ter sido o escritório do deputado aveirense favorecido por ajustes directos envolvendo milhares de euros de proveitos em casos nunca explicados. Deve ser mentira. Como é meu deputado, gostava de lhe ouvir uma explicação sobre tais boatos. Só para que nesse aspecto também sobre ele não pairasse também esta outra sorte de desconfianças.

Fala-se tanto da necessidade de se saber quem são os nossos deputados, e como pode a nossa terra contribuir para o país, pois aí têm o meu contributo para conhecermos o mais votado dos nossos. Não por mim, isso sabe-se.