Disparates populistas de Marcelo

(Por Penélope, in Blog Aspirina B, 12/03/2019)

Marcelo e o dedo que ameaça…

Dá que pensar, embora a violência da conclusão intrigue: caso se repetissem os incêndios de 2017, o Presidente dissolveria o Parlamento. Ou seja, deitaria abaixo o Governo e convocaria novas eleições. Marcelo declarou esta intenção em entrevista à TVI, ontem, num momento em que diz estar a ponderar a sua recandidatura. Nunca saberemos se o fazia ou não. Mas o facto de o afirmar é confrontacional. Segundo ele, os protestos do povo por entre cujo choro andou na altura dirigiam-se de tal maneira ao Governo e ao seu “descolamento da realidade” que não lhe restaria outra solução que não fosse mandá-lo abaixo nos próximos fogos, a acontecerem. Parece que assim vingaria o povo e, a partir daí, não mais haveria tragédias? Que “boutade“. Daquela vez passou, da próxima o Governo não passa? Ó paizinho. Com calma, sim?

Isto é ridículo, surpreendente e muito agressivo. Andando também pelo meio do povo naquela época seca e escaldante, ouvi acusações bem diferentes das invocadas. As coincidências dos fogos postos não escaparam a quase ninguém. Não levei, porém, uma câmara nem sou governante. É que não há nada melhor para ouvir dizer mal de quem governa do que andar um presidente, às vezes uma simples câmara de televisão, pelo meio do povo destroçado. De pessoas que não têm culpa nenhuma, de facto, do que aconteceu e nem terras possuem. Mas Marcelo não ignora certamente que quase ninguém nas terras ardidas limpava as matas, que animais como as cabras há muito desapareceram, que ninguém se preocupava com as portas de saída em certos edifícios, ninguém avaliava os locais de construção de habitações em termos de segurança, ninguém respeitava muito a proibição de queimadas, que todos queriam ganhar dinheiro com os eucaliptos, enfim, que já não chovia há sete meses; e muitos dos que protestavam se esqueceram dos cortes nos organismos públicos e em pessoal (incluindo vigilantes florestais e bombeiros) no tempo do governo anterior; no entanto, já que havia palco e presidente, este diz que o povo malhava era no Costa. E muita gente acredita. Marcelo tinha obrigação e a decência de interpretar correctamente situações de aflição e desespero e de ver mais longe, devendo ele próprio, já agora, contribuir para uma maior tomada de consciência das populações e autarquias para as suas próprias responsabilidades. Mas assim não foi e só pode haver uma razão pouco louvável.

Alguns dados:

Segundo o relatório da Comissão Técnica Independente, que Marcelo seguramente leu, 40% dos incêndios de 2017 deveram-se a actos incendiários intencionais, 20% a negligências várias e os restantes 40% a reacendimentos. Escusado será lembrar aqui também, a propósito das dificuldades no combate, o número inusitado de incêndios que se verificaram praticamente em simultâneo, consumindo meios e recursos não multiplicáveis por todo o país, ou os fenómenos atmosféricos até essa data raros que foram responsáveis, pelo menos, por uma das principais tragédias desse fatídico ano, numa determinada estrada. Esses dados deveriam estar sempre presentes antes de alguém decidir mandar para o ar acusações disparatadas e venenosas. Marcelo acusa agora directamente o Governo (na pessoa da ministra da Administração Interna de então) de responsabilidade pelas tragédias ocorridas. Não se percebe onde quer chegar com tal incriminação, numa altura em que até se leram notícias, não sei se falsas, de um possível apoio do PS à sua recandidatura.

E já que falo nisso, aproveito para dizer que discordo em absoluto desse apoio. O partido socialista deveria manter-se distante. Se não tem candidato, cale-se. Já bastou o que aconteceu com Cavaco Silva que, no primeiro mandato, pareceu cordial e colaborante, conseguindo seduzir para o voto muitos dos que não apreciavam Manuel Alegre e, mal se apanhou reeleito, desatou a fazer discursos vingativos contra os socialistas e política partidária desenfreada em prol dos seus camaradas de sempre, muito contribuindo para a catástrofe que se seguiu.

Marcelo não governa nem governava em 2017 e só isso já o devia fazer conter. Pelo que disse na entrevista, até parece que o Costa não faria nada para evitar novas tragédias decorrentes de incêndios nos anos seguintes se não sentisse a espada de Dâmocles por ele supostamente colocada sobre a sua cabeça. É obviamente mentira. Além de ser uma afirmação antipática de autoridade.

Por questões relacionadas com a sua própria reeleição, Marcelo está a optar pela esperteza saloia (pode não ser verdade que fizesse o que diz que faria), pelo distanciamento de vedeta e pelo vale tudo, incluindo o aproveitamento de tragédias que nenhum governo poderia ter evitado.


Fonte aqui


Advertisements

Ignorância e ódio velho

(Por Alfredo Barroso, in Jornal i, 04/03/2019)

1. EFEMÉRIDE – Espanta-me como criaturas completamente imbecis da direita mais reaccionária, intelectualmente desonestas e hipócritas, ignoram tão facilmente uma enorme porção de escândalos – como os do BCP, do BPN, do BPP, do BES, do BANIF, da Tecnoforma, do ‘canudo universitário’ do falso doutor Miguel Relvas, da herdade dos sobreiros, da compra dos submarinos, dos ‘Vistos Gold’, dos pequenos depósitos bancários feitos por um tal Jacinto Leite Capelo Rego que somaram um milhão de euros, e tantos outros pequenos, médios e grandes escândalos de corrupção em que estiveram mergulhados até ao pescoço vários políticos ‘graúdos’ do PPD-PSD e do CDS-PP – e como hoje em dia tais imbecis se atrevem a dizer que “estes agora são bem piores, escândalos atrás de escândalo, o ps no seu melhor” (sic), sem todavia nos dizerem que escândalos são esses. A hipocrisia, o fanatismo e o facciosismo são, de facto, características dominantes desses e dessas imbecis irresponsáveis da direita que surgem no ‘facebook’ a odiar, a insultar e a acusar sem provas.

O ódio vigilante dos medíocres não dá tréguas. Ainda há poucos dias, a evocação de um facto político ocorrido há mais de 30 anos – ilustrado por uma foto da varanda da sede, na praça do Saldanha, da primeira candidatura vitoriosa de Mário Soares a Presidente da República, na noite de 16 de Fevereiro de 1986 – foi para mim uma grata recordação, mas também foi, para alguns imbecis ignaros, mais um pretexto para manifestarem a sua ignorância e o seu ódio sempre vigilante.

Comentei essa foto, publicada no dia 16 de Fevereiro por uma ‘amiga de facebook’, explicando que, nesse momento, preferi resguardar-me atrás da janela e não quis chegar-me à frente, sobretudo quando vi alguns ‘paraquedistas’ e ‘apoiantes de última hora’ disputarem como doidos um lugar à frente na varanda. Mas foi, de facto, uma noite memorável. Lembro-me de ter estado, horas antes, com o meu primo-irmão Mário Barroso em casa do ainda candidato – com ele e a nossa tia Maria Barroso – à espera que chegasse a confirmação da vitória, por uma ‘unha negra’ – ainda mais saborosa por isso mesmo – ao cabo duma inesquecível eleição presidencial a duas voltas. Eu tinha 41 anos e o novo Presidente 61.

Dias depois, quando ferviam notícias nos jornais sobre quem é que Mário Soares iria escolher para Chefe da sua Casa Civil – e choviam nomes de gente famosa, todos eles sem acertarem no alvo – o Presidente eleito chamou-me ao seu gabinete, na sede de campanha, que era ao lado do meu gabinete, e perguntou-me se eu aceitava ser o Chefe da sua Casa Civil. Ninguém acreditará mas é mesmo verdade que não estava à espera, e nem sequer essa possibilidade me passara pela cabeça. Mas aceitei, com muita honra. E lá fomos os dois para o Palácio de Belém, e lá ficámos durante dez anos. Saí de lá com 51 anos e Mário Soares com 71. Mas, depois desses dez anos deveras interessantes, e não só do ponto de vista político, decidi dar por terminada a minha vida política activa, não regressando sequer à militância partidária. Ainda fiz uma ‘perninha’, de que muito me arrependi, como administrador da Fundação de São Carlos, convidado pelo ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho…

2. ÓDIO VELHO – Eis senão quando, de volta ao ‘facebook’, leio o comentário duma Fulana, de rara singeleza: “Lembro-me bem de essas eleições, foi nessas eleições que Cunhal mandou os comunistas fecharem os olhos e votarem Soares” (sic). Depois leio com perplexidade o que escreveu Beltrano: “Quanto mais teria sido feito se Freitas do Amaral tivesse sido eleito? Provavelmente muito” (sic). E logo a seguir leio o que escreveu um Sicrano afogado em ignorância: “E assim se prosseguiu no descontrolo das contas públicas, e a dívida a crescer” (sic). “Sancta simplicitas”!

Note-se que omiti os nomes verdadeiros, para não os humilhar. Mas não lhes vou poupar os factos reveladores de tamanha ignorância. O erro de Fulana nem é grave: o que Álvaro Cunhal disse aos comunistas foi que tapassem a foto de Mário Soares no boletim de voto mas não se enganassem e pusessem a ‘cruzinha’ à frente dela. Se fechassem os olhos, não conseguiriam votar. Quanto à fantasia de Beltrano, deu-lhe, coitado, para sonhar com o seu pequeno ‘paraíso perdido’, já habitado por Cavaco e ainda à espera de Freitas. Havia de ser lindo! Já se sabe que, se não tivesse havido o ‘25 de Abril’, também não teria havido liberdade e democracia! E Beltrano e amigos reaccionários, em vez de Freitas e Cavaco, teriam tido Tomás e Caetano…

Já Sicrano, perfeito imbecil que representa uma irritante e ignara estupidez, merece que exponha a sua ignorância. De facto, à luz da Constituição, só o Governo detém o poder executivo – e legislativo, administrativo, económico e financeiro – sendo dele a responsabilidade de gerir bem as contas públicas e, obviamente, a possibilidade de as ‘descontrolar’. Mais: quando Soares foi eleito, em Fevereiro de 1986, o Presidente da República nem sequer tinha ‘autonomia financeira’ relativamente ao seu próprio orçamento, que era estabelecido, exclusivamente, pelo Governo. E esta verdadeira aberração jurídica e constitucional só seria corrigida dez anos depois, já durante o primeiro mandato do Presidente Jorge Sampaio. Falo por experiência própria: fui o Chefe da Casa Civil do PR Mário Soares, durante os seus dois mandatos.

3. IGNORÂNCIA – Ao ler a crítica que lhe fiz, Sicrano, caso perdido, escreveu este mimo: “O ‘socialismo’, sr. Alfredo, essa marca que 4 décadas passadas tanto tem contribuído para uns tantos. E qual é o nosso lugar, como país, cada vez mais na cauda da Europa? Endividados como nunca…” (sic). Sicrano é ‘poucochinho’, nocivo e ignaro. Convirá, por isso, lembrar factos históricos indesmentíveis.

Desde logo, deverá ser recordado que um dos grandes ‘descontrolos’ das finanças públicas se ficou a dever aos três Governos da Aliança Democrática (AD), entre 1979 e 1983, designadamente: a perda de competitividade da economia; o agravamento brutal do défice externo; enorme endividamento em dólares das empresas públicas; e recusa de financiamento por parte do sistema financeiro internacional, face a um défice externo recorde. Pois bem, foi ao Governo do ‘Bloco Central’ (PS-PPD/PSD), chefiado por Mário Soares, entre 13 de Junho de 1983 e 6 de Novembro de 1985 (já que Cavaco rompeu a coligação mal foi eleito presidente do PPD-PSD), que o país ficou a dever: a recuperação da competitividade da economia; o controlo das contas públicas; o excedente da balança de transacções correntes; a eliminação do défice externo; a restauração da credibilidade de país face às instituições internacionais; a abertura do processo de reprivatização de importantes sectores da economia que tinham sido erradamente nacionalizados; a integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE, hoje União Europeia); a abertura ao mercado espanhol e as transferências de fundos de Bruxelas, graças à integração europeia.

Convirá, enfim, salientar os graves erros dos Governos de Cavaco. Como escreveu, em 2005, Teodora Cardoso: “Ao contrário da moda recente de criticar a opção pelas infraestruturas, não me parece que esta tenha sido um erro. Erros sim – e graves – foram a incapacidade: de usar eficazmente os fundos de formação profissional; de levar a cabo uma reforma do sistema de ensino que privilegiasse as necessidades da sociedade e da economia; de proceder a um correcto reordenamento do território e a uma reforma do processo orçamental que permitisse a descentralização racional da gestão pública; de criar uma administração pública e parceiros sociais preparados para encaminhar Portugal no sentido que a integração europeia e mundial lhe impunham. Ao contrário do que por vezes se diz, o facto de se construir estradas não impedia que se melhorasse a qualificação dos portugueses. Pelo contrário, face à abundância dos fundos estruturais e ao crescimento rápido da economia e da sua capacidade de financiamento, ambas as opções eram não só possíveis como, até, indispensáveis”. Foram, aliás, as consequências de tais erros – défices excessivos do sector público administrativo; aumento da despesa pública superior a 12 % entre 1990 e 1995; taxa de crescimento muito baixa (0,8 % em vez de 2, 8 %, como ele tinha prometido, entre 1991 e 1994); taxa de desemprego a crescer (superior a 7 % em 1994) – que levaram Cavaco, após o célebre ‘tabu’, a decidir afastar-se, não só da chefia do Governo mas também da liderança do PPD-PSD, passando, pois, a ‘batata quente’ para as mãos de Fernando Nogueira, que lhe sucederia na presidência do PPD-PSD e que viria a ser derrotado pelo PS de António Guterres nas eleições legislativas de 1995. Esta é a verdade dos factos, que nada tem a ver com a colossal ignorância que alimenta o ódio velho de tantos imbecis nas redes sociais!

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990


Artigos Relacionados


O Governo “engenhoca” de Portugal: há substância para além da retórica?

(Joana Ramiro, In A Viagem dos Argonautas, 27/02/2018)

A coligação pluralista de esquerda – ‘engenhoca’ para os seus detratores – em Portugal alterou o discurso político. No entanto, a mudança é menos evidente no terreno…


Continuar a ler aqui