Ao nosso lado

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/03/2019)

Pacheco Pereira

Em que países da Europa é que seria hoje possível fazer um processo por “sedição”? Dois: ­a Rússia e a Espanha. Neste momento estão a ser julgados em Madrid um conjunto de dirigentes políticos catalães eleitos, com funções na Catalunha durante o movimento pela independência, por “rebelião, sedição e peculato”. A acusação de “peculato” é ridícula, destina-se apenas ao esfregar das mãos dos seus adversários, dizendo que eles “roubaram” alguma coisa, quando a acusação diz respeito ao uso de dinheiros públicos, geridos pelo governo legítimo da Catalunha, para organizar os processos de referendo. Aliás, os argumentos jurídicos são a maneira neste caso de deixarmos de ver o essencial: estes homens foram eleitos para fazerem o que fizeram, contam com o apoio dos catalães e conduziram um processo pacífico destinado a garantir a independência da região da Catalunha, algo que não é alheio a direitos e garantias do próprio estatuto catalão e dos compromissos para a sua revisão. É um processo político puro, e os presos catalães são presos políticos puros.

A outra coisa do domínio do político é o silêncio cúmplice de toda a União Europeia, que não mexe uma palha perante o que se está a passar em Madrid, onde a comunicação social se comporta como partidária do “espanholismo” mais radical e mobiliza os seus leitores, ouvintes e telespectadores para exigirem a condenação dos catalães, como se de criminosos de delito comum se tratassem. Este silêncio cúmplice é mais uma pedra no abandono de valores da União, que se mobiliza para todas as causas longínquas e oculta as que estão bem dentro dela.

E não adianta vir com a demagogia de comparar o “nacionalismo” catalão com a onda nacionalista que atravessa a Europa, xenófoba, hostil às liberdades, populista, sobre a qual as autoridades europeias mostraram sempre grande complacência. O movimento independentista catalão é até o único exemplo, juntamente com o nacionalismo escocês, de um movimento pacífico, moderado, cosmopolita, com enorme apoio popular, mas sem nenhuma das perversões do nacionalismo basco do passado, nem do irlandês, nem, registe-se, do nacionalismo espanhol, uma das correntes políticas mais agressivas de Espanha, como, aliás, se vai ver em breve nas próximas eleições.

Mas, já o escrevi e repito, nós, nesta matéria, somos uma vergonha. Estamos ao lado da Espanha, cujo nacionalismo tememos ao longo de toda a nossa história, com raros momentos de descanso, e apenas de descanso porque a Espanha estava fraca, e fazemos de conta que somos os três macaquinhos de mão a fechar a boca, os olhos e os ouvidos. Os presos políticos estão lá e nós caladinhos a pensar que não é connosco.

Somos capazes de juntar umas dezenas de pessoas para causas remotas e obscuras – e quase sempre bem –, mas quanto a Espanha ou ficamos apáticos e indiferentes, ou, o que é pior, alinhamos com o coro espanholista. Esse coro vai varrer o PSOE e vai trazer o PP e o neo-PP, os Cidadãos, o Vox e muitos grupos junto dos quais o nosso Chega é um pacífico menino. O espanholismo dos dias de hoje, posterior à tentativa catalã, é genuinamente franquista, mergulha fundo na trágica história de Espanha do século XX.

Portugal e os portugueses não podem ter esta indiferença face à sorte dos nossos irmãos catalães a quem devemos também uma parte da nossa independência nos idos de 1640. A causa catalã está a passar momentos difíceis, mas só a cegueira é que pode pensar que vai desaparecer. Se os presos políticos catalães forem condenados, então aquilo que já é hoje o principal bloqueio da política espanhola, ancorando-a à direita, tornar-se-á uma fonte conflitual muito séria em toda a Espanha, onde a reivindicação nacionalista no País Basco, na Galiza e noutros locais vai mobilizar uma nova geração de desespero, e o desespero é mau conselheiro. Para Portugal, a doença espanhola vai chegar com um pólo espanholista agressivo aqui ao lado que irá condicionar a política portuguesa. E vai ter na nossa direita radical, na alt-right nacional que começa a organizar-se como grupo de pressão face aos partidos políticos que acha que saíram da linha, como o PSD, um apoio entusiástico.

Com a memória ainda fresca do passado recente da troika-Passos-Portas, não teriam por si próprios muita importância, porque a nostalgia de um passado escuro não chega para mobilizar para o futuro, mas o apoio de uma Espanha muito à direita pode ser um factor de desequilíbrio. Também por nós, deveríamos olhar para esse grupo de homens corajosos que estão a ser perseguidos e julgados em Espanha com um olhar mais solidário e comprometido.


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Magalhães na campanha espanhola: vistas de fora, as figuras tristes são mais evidentes

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/03/2019)

Daniel Oliveira

O diretor do “ABC” reagiu com indignação à suposta tentativa das autoridades portuguesas se apropriarem da viagem de circum-navegação. De facto, a Câmara Municipal de Sabrosa colocou a “Rota de Magalhães” na lista de iniciativas de candidatos a património da UNESCO sem que fosse acompanhada por Espanha. Mas, a 23 de janeiro, os Governos espanhol e português anunciaram uma candidatura conjunta que envolvesse os Estados relacionados com a viagem de Magalhães e Elcano. Assumindo uma história comum que já não precisa de Tratados de Tordesilhas para ser celebrada.

Sobre o essencial dos factos históricos, não há grandes dúvidas: a viagem de circum-navegação não foi planeada – o regresso só se fez pelo Índico porque Juan Sebastián Elcano, que substituiu Fernão de Magalhães depois da sua morte, percebeu que não seria possível regressar de outra forma e por isso desobedeceu às ordens da coroa espanhola –, foi patrocinada pelo rei Carlos I de Espanha (Carlos V do Império Romano-Germânico), teve orientação científica de um português e foi levada a cabo por um português, até ao arquipélago das Filipinas, e um espanhol, a partir daí. Magalhães só se tornou mais famoso do que Elcano graças a Antonio Pigafetta, o escritor italiano que acompanhou a viagem.

Apesar de nada disto estar em disputa, a Real Academia de História (RAH) espanhola correspondeu, esta semana, ao apelo falsamente indignado diretor do jornal conservador “ABC” e elaborou um relatório em que esclarece, sem margem para dúvidas, que a viagem de circum-navegação levada a cabo por Fernando de Magalhães é exclusivamente espanhola. O parecer da RAH nada tem a ver com uma questiúncula histórica, que não existe. É apenas mais um ato na campanha eleitoral para as legislativas. Uma campanha em que Portugal é apenas um dano colateral. O alvo é a esquerda e a sua suposta falta de espanholismo.

“Falsear a história”“Portugal distorce a história e apaga o Império Espanhol de todo o mundo” são alguns dos títulos dos diários “ABC” e “El Mundo”, que deixam claro que não estamos a discutir apenas o passado. Uma polémica que nos passa ao lado porque não existe, na realidade, polémica alguma. Ela apenas serve para o que veio depois: ter o PP e o Ciudadanos a acusarem Sánchez e a esquerda de falta de patriotismo. Quanto a coisa fica difícil é a isto que a direita espanhola se dedica. Também foi por depender do exacerbar do nacionalismo espanholista com que Rajoy alimentou o mais que pôde o conflito com a Catalunha.

Muitos sorrirão com o absurdo de tudo isto. Como é possível que jornais que se querem de referência insuflem esta não-polémica para atirarem Fernão Magalhães à cabeça de Pedro Sánchez? Como é possível que uma instituição científica se envolva nesta histeria infantil com funções exclusivamente eleitorais? Como é possível que a História seja politicamente instrumentalizada de forma tão evidente e tosca? Espero que os que por cá assim reagem vão reler o que escreveram na polémica sobre o Museu dos Descobrimentos. Talvez reconheçam esta patética obsessão em manter a propriedade nacional da História, recusando a partilha com outros de uma memória feita glórias e tragédias. Há orgulhos pátrios que só são ridículos nos outros.

Como escreveu Rui Tavares, o que se tira daqui é que “a viagem à volta do mundo pertence a gente de muitas origens e que a comemora quem quiser”. Foi isto que alguns (eu e, com mais propriedade, o próprio Rui) andaram a dizer quando se discutiu o Museu dos Descobrimentos: que a História que continuamos a aprender esquece que os mesmos acontecimentos podem ser contados de maneiras muito diferentes conforme o lugar onde são lembrados. Este ponto de partida não é menos político do que a utilização da História como forma de glorificar os feitos nacionais. Mas tem a vantagem presente de facilitar o diálogo entre povos e a vantagem passada de construir narrativas complexas e contraditórias que se aproximam mais da verdade.

A figura que o “ABC”, o “El Mundo”, o PP, o Ciudadanos e a Real Academia de História estão a fazer para consumo eleitoral, a propósito de Fernão de Magalhães, é ridícula? Tão ridícula como tantas que por cá já se fizeram. Vistas de fora, as figuras tristes são mais evidentes.


Coerência ideológica

(Carlos Esperança, 28/12/2018)

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Dos grunhidos televisivos, aos uivos radiofónicos, aos vómitos na imprensa, às ameaças do então PR, aos ecos das redes sociais, os dirigentes do PSD e do CDS eram unânimes em considerar ilegítimo um governo [este] formado no único órgão que o legitima, com os votos de PS, BE, PCP e PEV, de acordo com a CRP.

Ganiram imprecações, anunciaram vapores de enxofre em telúricas fendas diabólicas e não se conformaram. Só Paulo Portas, mais inteligente e culto, viu o ridículo, e deixou a Dr.ª Assunção Cristas a vociferar impropérios, o ora catedrático Passos Coelho a lamber feridas e Cavaco Silva a ruminar ódios e ressentimentos.

Nos últimos tempos pensei que o PSD e o CDS viessem acusar o PP e o Ciudadanos, os partidos homólogos espanhóis, do atentado à democracia por se unirem contra o PSOE, vencedor das eleições na Andaluzia, e, sobretudo, por terem pedido auxílio a um partido abertamente fascista [VOX] que advoga a proibição dos partidos políticos e combate a democracia.

Com o descaramento que lhes conhecemos, a Dr.ª Cristas aguarda a notícia do acidente de automóvel que provoca um morto e grita que o Estado falhou, Passos Coelho prepara as aulas para futuros catedráticos e Cavaco Silva continua a escrever sobre as quintas-feiras.

É preciso topete. Reina o silêncio sobre a Andaluzia, desde o Largo do Caldas até à Rua de São Caetano, à Lapa.