#SchoolStrike4Climate: a lição dos estudantes

(Por José Soeiro, in Expresso Diário, 15/03/2019)

Não viemos pedir aos líderes que se preocupem. Ignoraram-nos no passado e ignorar-nos-ão de novo (…) A mudança está a chegar, quer queiram quer não”. As palavras de Greta Thunberg, a jovem sueca de 15 anos que iniciou o movimento da greve estudantil pelo clima, impressionam não apenas pelo seu conteúdo, mas pelos lugares onde foram proferidas. Diante dos mais poderosos do mundo, Greta nunca se acanhou nem deslumbrou, nunca recuou na sua mensagem nem nunca se intimidou com quem tinha à sua frente. Disse sempre o mesmo, com a mesma radicalidade: os jovens não vêm pedir licença a ninguém nem vêm pedir favores aos donos do mundo. Vêm desobedecer a quem os quer conformados e vêm fazer o que tem de ser feito, contra a irresponsabilidade dos dirigentes políticos que, em todo o mundo, têm colocado os interesses económicos, a lógica do lucro e do curto prazo à frente do combate às alterações climáticas e do bem comum.

“Aulas há muitas, planetas só temos este”, afirmavam alguns dos milhares de jovens que estiveram nas dezenas de manifestações que hoje varreram Portugal de uma ponta à outra. Os pais e mães, os professores ou diretores das escolas que, perante este alerta, estão mais preocupados com uma falta injustificada ou com uma nota, parecem não ter percebido a profundidade do que nos estão a dizer os e as adolescentes. Sem planeta não há notas, nem escola, nem sucesso individual.

Mais valia, por isso, aprendermos com os miúdos e miúdas a lição que nos dão. Já é tempo de deixarmos de olhar só para nós e para o nosso umbigo. Já é tempo de pensarmos em comum e no nosso futuro. Ainda bem que há quem nos esteja a obrigar a fazer isso.

O desafio com que estamos confrontados é, de facto, radical. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (mais conhecido por IPCC), a organização da ONU para esta matéria, para que o planeta sobreviva precisamos de cortar para metade as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030. Isto implica uma mudança total de paradigma no modo de produção e de consumo, acabar com a exploração de petróleo, gás e carvão e com uma economia que funciona com base nos combustíveis fósseis, no plástico, na obsolescência programada e no descartável. Sem isso vamos continuar a assistir a catástrofes naturais provocadas pelos danos que estamos a infligir ao planeta, às migrações em massa de refugiados climáticos, a pessoas a quem faltam bens básicos como a água e a comida, ao agravamento das desigualdades e do sofrimento à escala mundial. Sim, estamos numa crise climática grave e ela não vai resolver-se apenas com pequenas mudanças individuais – é a própria lógica do sistema que tem de ser posta em causa. E esse sistema tem um nome: capitalismo.

Já sabemos que sobre esta manifestação, muitas coisas se dirão. Que “é uma causa bonita”, como se fosse apenas uma consensual e inconsequente causa bonita de uma juventude ingénua – e não um grito de alerta concreto sobre problemas candentes que vão desde os furos de petróleo (que ainda não foram cancelados em Portugal, por exemplo) às consequências das barragens, dos transportes públicos ao investimento em energias renováveis (será preciso lembrar que acabámos de deixar encerrar a maior fábrica de painéis solares do país?) ou à omnipresença dos plásticos. Para sacudir a água do capote, pode sempre enfatizar-se a necessidade de uma “mudança de comportamento individual por parte de quem hoje se está a manifestar”, como se o aquecimento global fosse sobretudo responsabilidade das decisões individuais de consumo e não consequência das regras globais de produção e das decisões políticas sobre o funcionamento da economia, que foram o que motivou o início deste movimento. Houve até quem já tivesse sugerido que os estudantes, por não serem trabalhadores, não têm legitimidade para fazer greve (como se não tivessem feito desde sempre…) e acusado a greve feminista do passado dia 8 e a greve estudantil de hoje de serem “um mero instrumento ao serviço de interesses que, em muitos casos, são estranhos aos interesses dos trabalhadores”.

Pela minha parte, só posso dizer isto a quem hoje se manifestou: obrigado por estarem a fazer a vossa parte. A alertar para a necessidade de respondermos à crise climática. A expandir o conceito de greve, reforçando e reinventando este repertório de luta, a provar que em Portugal o movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento ecologista têm espaço, vão à raiz dos problemas e não pedem permissão para existir.


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Querem-nos ignorantes

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 05/01/2019)

pml

Pedro Marques Lopes

Em outubro do ano passado, cientistas avisaram que o consumo excessivo de carne está a causar uma catástrofe ambiental. É fundamental que o consumo de carne de vaca seja reduzido em 90% e o de carne de porco e de leite e seus derivados baixe drasticamente. A desflorestação para a criação de gado, com as emissões de metano pelas vacas e a utilização de fertilizantes cria tantas emissões de gás com efeito estufa como todos os carros, camiões e aviões juntos.

Estes dados constam de um artigo recentemente publicado no The Guardian. São apenas alguns poucos dados da imensidade de provas científicas do que o excessivo consumo de carne está a fazer ao nosso planeta.

Pode haver quem pense que não há novidade nenhuma em mais um artigo como o referido e que não faltam filmes, documentários e tratados científicos a abordar o tema. De facto, não há nada de novo, mesmo nada. Sobretudo a pouquíssima divulgação nos principais órgãos de comunicação social de tudo o que diz respeito a este tema e o olhar para o lado do poder político.

A nuvem de silêncio sobre as consequências para a humanidade, para o nosso habitat comum do consumo de carne é absolutamente chocante. Só tem paralelo com a pouquíssima divulgação dos crimes ambientais diários e o olhar indulgente, como se opções corriqueiras fossem, para decisões políticas dos mais importantes líderes mundiais que estão a condenar o futuro da própria existência do homem.

Por esta altura já não me restam grandes dúvidas: há, por ação ou omissão, uma vontade política em ignorar os problemas que o excessivo consumo de carne acarreta. Claro que a tarefa de mudar hábitos alimentares, costumes milenares, uma inteira cultura ligada ao consumo de carne é brutal e leva muito tempo, mas é urgente e exige não só ações políticas decididas como enormes campanhas de sensibilização. O facto é que nada disto está a ser feito, pelo contrário. A questão é simples: queremos ter um mundo para os nossos descendentes ou queremos destruí-lo?

Vivemos num mundo em que a propaganda contra o consumo do tabaco é gigantesca, em que drogas incomparavelmente menos prejudicais para a saúde do que as bebidas alcoólicas ou o tabaco são proibidas, ao mesmo tempo que somos inundados de publicidade para que comamos mais carne e derivados de leite. Ou seja, em vez de se promover a informação de que o excessivo consumo destas substâncias está a destruir o nosso mundo, incentiva-se o seu consumo como se fosse algo de bom.

Há aqui também algo de profundamente pernicioso, uma espécie de ideologia destrutiva da ideia de casa comum. Um cuidado extremo com o indivíduo coexiste com um desprezo olímpico pela comunidade. O indivíduo deve ser são, o meio onde ele vive pode ser destruído. A força das grandes empresas, não só na capacidade de influenciar os governos mas também toda a comunicação, meios tradicionais e redes sociais, é uma parte fundamental do problema.

Que governo se atreve a olhar para a indústria de criação de gado ou leiteira e restringir seriamente a sua atividade? Lá está, impostos, empregos, bem estar presente. Que meios de comunicação social podem pôr em causa grandes empresas de distribuição ou redes de restaurantes sem correr o risco de porem em causa a sua própria sobrevivência financeira? E, claro, essas grandes corporações têm uma capacidade para manipular as redes sociais e até usá-las como forma de vender as suas verdades. Que partidos nos países mais industrializados podem deixar de ser apoiados por lóbis tão fortes como os das indústrias das carnes, dos laticínios, dos fertilizantes ou dos grandes laboratórios?

Vivemos uma espécie de beco sem saída. O poder político demitiu-se de olhar para o futuro da comunidade e foi substituído por um poder económico que apenas pensa no lucro imediato. Nunca tão poucas empresas e lóbis associados tiveram um poder tão avassalador.

A mais importante questão política dos nossos tempos é o problema ambiental e todos os aspetos com ele relacionados. Se não o atacamos não falaremos mais sequer de política porque não teremos comunidade, nem mundo, nem pessoas. E o facto é que é tratado como um problema de terceira categoria pelos governos e, sobretudo, por nós cidadãos.

Por mim, a minha decisão para o novo ano é tentar não comer carne. Custa, mas eu gostava que os meus filhos, netos e bisnetos tivessem um planeta para viver. E gostava que eles vivessem com os seus, caro leitor. Bom ano.



O MEL

No próximo fim de semana, um conjunto de pessoas reúne-se em Lisboa com um objetivo mal disfarçado: lançar as bases para formar um partido. É o projeto que vem sendo anunciado por alguns como a refundação da direita. Por enquanto chama-se Movimento Europa e Liberdade, MEL. Reúne gente do CDS que já percebeu que o partido nunca passará da cepa torta (onde se inclui Assunção Cristas), pessoas do PSD que já não são do PSD mas que se aproveitam do partido para poderem promover a sua própria agenda e vários órfãos do passismo de vários setores. Nada contra a iniciativa destas pessoas. Pelo contrário. Novas iniciativas político-partidárias, mesmo que disfarçadas, são um sinal de vitalidade da democracia.



Vale tudo?

Na quinta-feira, Mário Machado, condenado por vários crimes, líder de um movimento de extrema-direita e divulgador de mensagens de ódio, racistas e xenófobas, foi entrevistado no programa da manhã da TVI de que Manuel Luís Goucha é autor e apresentador. Houve também uma espécie de inquérito de rua onde se perguntava às pessoas se precisaríamos de um novo Salazar. Entretanto, a página de Facebook Manuel Luís – TVI lançava uma sondagem com a pergunta: “Acha que precisamos de um novo Salazar?” Das duas uma: ou o Manuel Luís Goucha e a TVI estão tão desesperados com as audiências que resolveram dar espaço a promotores de ódio, a publicitar ideias fascistas e a desculpabilizar um ditador, ou uma pessoa com a importância mediática do apresentador e a direção da TVI não têm a noção da responsabilidade que é gerir um canal de televisão e do poder de que desfrutam. Francamente, a segunda assusta-me mais.

“Fini, c’est fini, ça va finir…

(António Guerreiro, in Público, 02/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Já não há dúvidas de que estamos a assistir à sexta extinção em massa. Mas desta não restará um cineasta ao serviço de Hollywood para nos apresentar belas imagens virtuais das espécies extintas.


…Ça va peut-être finir”, diz Clov, uma personagem de Fin de partie, uma peça de Beckett. O tempo dos fins está aí, diante de nós, a assombrar-nos, e já não apenas num plano existencial e metafísico: a frase que anuncia a forma contemporânea do desastre já não é “o deserto cresce” (expressão de um pessimismo cultural) mas “a extinção aproxima-se” (aviso de uma catástrofe ecológica).

Um relatório da ONG World Wide Fund for Nature, divulgado esta semana, sobre o estado da biodiversidade do planeta, diz que entre 1970 e 2014 as populações de vertebrados selvagens (peixes, pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis) diminuíram 60% a nível mundial. Não é uma novidade: em Julho do ano passado, um outro estudo feito por investigadores americanos, publicado nosProceedings of the Natural Academy of Sciences of  the United States of America, amplamente divulgado nos principais jornais de todo o mundo, tinha chegado a conclusões idênticas: a de que está em curso uma “desfaunização” de consequências catastróficas para os eco-sistemas.

Eis alguns números desse estudo: as populações de 32% das espécies de vertebrados estão em acelerado declínio, 40% das espécies de mamíferos viram as áreas pelas quais se repartem diminuir 80% entre 1900 e 2015; 43% dos leões desapareceram desde 1993, já só restam cerca de 35000. Esta aniquilação biológica diz respeito não apenas às espécies, mas também às populações de cada espécie.

Já não há dúvidas de que estamos a assistir à sexta extinção em massa. Mas desta não restará um cineasta ao serviço de Hollywood para nos apresentar belas imagens virtuais das espécies extintas – como aconteceu aos dinossauros, por acção de um asteróide, há 66 milhões de anos – porque já não haverá um único homem e terá sido consumado o mundo feito e refeito à sua imagem.

Claude Lévi-Strauss bem escreveu no seu Tristes Tropiques que “o mundo começou com o homem e irá acabar sem ele”, mas a sua hipótese não tinha prazo para se realizar. Agora que já temos prazos e eles são curtos, agora que as eras geológicas correm à velocidade das gerações, tudo se alterou nas nossas representações de uma extinção sistémica por acção do homem.

O desafio que nos é lançado é este: não podemos deixar de pensar nisto, é absolutamente prioritário colocar estas questões ecológicas no centro das nossas acções e preocupações, mas isso transporta-nos para um outro plano em que Trumps, Bolsonaros & Co. são coisas pouco importantes, meras borbulhas num corpo canceroso. Por isso é que o pensamento ecológico tem um fundo mítico e reaccionário: porque nos transporta para fora das contingências históricas, porque reclama a urgência de interromper a dialéctica e o progresso, porque supõe um horizonte que não é o do tempo da política e introduz uma lógica que não é antropocêntrica nem humanista.

O bom ecologista é uma espécie de “último homem” nietzschiano, colocado perante o paradoxo de, em última instância, desejar um mundo sem nós, na medida em que salvar o planeta, a sua fauna e a sua flora, significa salvá-lo da humanidade. Em boa verdade, ser ecologista porque se quer defender a espécie humana da sua extinção é um contra-senso.

Ocorrem-me estas questões enquanto atravesso de carro o Alentejo e noto que o olival intensivo que cobriu grandes extensões da planície e extinguiu qualquer outra vida se prolonga agora em amendoeiras a perder de vista, que daqui a pouco tempo cobrirão a terra, intensivamente, como arbustos enfileirados em parada para a campanha da produção. Queixaram-se da monocultura? Aqui têm a bicultura. E numa estação de rádio o ministro da Agricultura anuncia: vamos aumentar a área de regadio no Alentejo não sei quantos milhares de hectares. É o anúncio de que o Alentejo vai ficar verdinho. Hoje há vinho maduro e azeitonas, mas amanhã até vamos produzir vinho verde e havemos de ter uma zona de floresta nórdica. Viva Lysenko e o lysenkoismo!