Contra a barbárie, exigir a segurança

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 14/03/2019)

Alexandre Abreu

A extrema-direita, abertamente fascista ou ‘apenas’ xenófoba e ultraconservadora, tem crescido fortemente na Europa nos últimos anos, alcançando resultados eleitorais acima dos 10% e mesmo 20% nalguns países e participando atualmente no Governo em países como a Itália, a Áustria e os países do grupo de Visegrado.

A tendência não é apenas europeia, como sabemos, e conhecemos também as propostas e medidas sinistras a que está associada. A extrema-direita alia a mais extrema desumanidade face ao ‘outro’ – os imigrantes, refugiados e mais pobres, em particular – a um profundo reacionarismo social, por exemplo em matéria de emancipação da mulher, dos direitos LGBT e até de atitude face à violência de género, como assistimos recentemente com o Vox em Espanha. Promete instaurar um mundo baseado no ódio, na desconfiança e na recusa da solidariedade.

A sua retórica populista não ameaça, antes consolida, as estruturas de dominação das elites económicas e financeiras sobre as pessoas. Em contrapartida, dirige-se ferozmente contra os agentes culturais e intelectuais, cultivando o anti-intelectualismo e o anti-racionalismo. Uma vez alcandorada no poder, procura desmantelar as estruturas democráticas e do estado de direito, manietando o poder e a independência do sistema judiciário, da comunicação social e das estruturas da sociedade civil.

Há com certeza vários fatores que têm contribuído para explicar a ascensão da extrema-direita, mas parece inescapável a ideia que em grande medida esta constitui uma resposta perversa a uma ansiedade real e generalizada em face de processos que cada vez mais retiram segurança às vidas das pessoas.

A precarização das relações laborais, a erosão dos sistemas de proteção social, a ameaça existencial de degradação ambiental, a financeirização dos sistemas de provisão de habitação, saúde e educação, o agravamento dos níveis de desigualdade – tudo isto são elementos que minam as bases do contrato social estabelecido ao longo do século XX e que geram profunda ansiedade, facilmente suscetível de direcionamento contra vários ‘outros’ – os estrangeiros, os beneficiários de apoios sociais, em vários países novamente os judeus.

A resposta à ameaça da extrema-direita e do terrível mundo de ódio que esta nos promete tem por isso de passar por proporcionar mais segurança à vida das pessoas. Segurança no acesso à habitação, à saúde e à educação para todos independentemente do rendimento, e confiança no apoio na velhice e na doença. Garantia de um trabalho e um salário dignos, e confiança em respostas atempadas à crise ambiental. Segurança de que as lógicas de privatização e financeirização prosseguidas nas últimas décadas não continuam a expôr as pessoas e as suas famílias a riscos intoleráveis, e pelo contrário são revertidas de modo a proporcionar às pessoas e às comunidades verdadeiro controlo democrático sobre as questões que são para si essenciais.

Não se conseguirá responder a esta ameaça, que constitui um sintoma mórbido do neoliberalismo e da financeirização, com mais neoliberalismo e mais financeirização. Contra a barbárie, é necessário exigir mais segurança e mais democracia.



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2 pensamentos sobre “Contra a barbárie, exigir a segurança

  1. Mais uma vez a falsa narrativa de que o aparente sucesso da extrema-direita se deve a qualquer acção por parte desta. Em quê é que a narrativa de Trump, Bolsonaro, Farage ou qualquer outro idiota destes é diferente da de Hitler ou Mussolini? Em 70 anos pouco mudou na formula: a culpa nunca é nossa nem das nossas escolhas mas sim de outros. Mas quem são os outros? Para Hitler eram os Judeus, para o Salvini são os imigrantes africanos.
    A questão importante aqui é outra: porque diabo pararam as pessoas de os insultar e humilhar – a posição por default de qualquer cidadão face a esta escumalha – para agora lhes darem ouvidos e até votos?
    Uma breve análise histórica explica tudo isso e muito mais. A ascensão destes perdedores naturais é exactamente igual ao que aconteceu com o partido nazi nos anos 30. Enquanto a sociedade alemã foi razoavelmente próspera e estável (nem é preciso ter a economia mais forte do mundo sequer entenda-se), o partido nazi era tal e qual o nosso PNR: um bando de idiotas que tentavam esconder a sua incapacidade de qualquer sucesso através de teorias conspiratórias absurdas, como acreditar que os judeus hipnotizavam pessoas e afins. E tal como o nosso PNR, eram tratados proporcionalmente: derrotados constantemente nas urnas e humilhados sempre que se atrevia a largar estas bacoradas em público.
    Mas eis que chega 1933 e a crise económica provocada pelo Crash da Bolsa de Nova Yorque, que afectou também a Europa, com particular ênfase para os países mais dependentes da saúde dos mercados americanos, como era o caso da Alemanha.
    De repente as pessoas perderam empregos, começou a faltar comida e energia, etc. E, como seria de esperar, as pessoas perguntavam porquê. E é aqui que a extrema-direita aproveita para cravar as suas unhas bolorentas. Aconteceu nos anos 30 e está a acontecer agora. Perante a confusão das pessoas normais, duas explicações surgem: a correcta, que implica conhecimentos de economia para a perceber e que exige também perceber conceitos sociais e políticos que a esmagadora maioria das pessoas simplesmente não está habituada a lidar, e a falsa, que surge entre os grunhos destes anormais mas que é simples e muito fácil de interiorizar.
    A chave para este aparente sucesso da extrema direita não está em qualquer capacidade ou truque elaborado mas sim na inerente preguiça intelectual da esmagadora maioria das pessoas. Até porque a extrema direita têm a capacidade de reunir o piorzinho de qualquer sociedade. Partidos como o PNR são literalmente aglomerados das pessoas mais inúteis que o nosso país alguma vez produziu. Esperar algo de ponderado ou minimamente complexo desta gente é fantasia.
    No entanto o que acontece hoje é basicamente isto: as pessoas sabem que algo não está bem com a sociedade. Não o conseguem definir ao certo porque a resposta a esta pergunta é complexa e é aqui que está o grande problema. Perante a escolha de ler incontáveis artigos, reportagens, livros e documentários para se obter informação fiável, a esmagadora maioria das pessoas prefere antes dar ouvidos ao maluquinho na berma da estrada com o cartaz racista. Porque é mais simples. Porque é algo que conseguem elaborar e discutir dentro da sua cultura limitada. Porque quando repetem os slogans xenófobos e racistas, ao menos compreendem o que estão a dizer. Porque a alternativa é analisar modelos macro-económicos e décadas de estudos financeiros.
    A extrema-direita é a resposta simples – mas errada – a um problema complexo e é isso que lhes dá votos, mais nada.

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