A economia portuguesa – a causa das coisas, debate e soluções – réplica

(Por Vítor Lima, 14/03/2019)

(N.E. – Este artigo surge em resposta ao artigo de Paulo Marques aqui publicado (ver aqui). 

Certamente que Portugal tem algo para vender, como todos os locais do planeta. Mas tem um problema histórico – falta de empresários para um desenvolvimento capitalista. Salazar não passou de querer um país agrícola modernizado favorecendo o Duarte Ferreira e a CUF para que isso acontecesse, sem nunca se preocupar com a formação da plebe, largamente analfabeta. Caetano pensou num salto em frente com a metalurgia pesada, os petróleos e a química, mas a reabertura do Canal do Suez (1) fez falir o projeto. E daí que, no seguimento do 25 de Abril se tenha procedido à socialização dos prejuízos e empresas falidas com o nome nacionalizações; a que se seguiu a recapitalização do sobrante com dinheiro público, forte redução do peso dos salários logo em 1976.

Tudo isso com a unanimidade da classe política. Morando na Baixa lisboeta em 1975, recordo perfeitamente grupos e manifestações de TODOS os partidos glorificando as nacionalizações; uma época em que o CDS falava de criação de uma sociedade sem classes. Embora muito jovem mas já com formação na área da economia e com uma dura experiência política no lombo (dois anos de prisão pela PIDE) via naquilo algo de estranho

Os deficits elevados nunca mais pararam, apesar da ladainha das privatizações, dos altos níveis de carga fiscal (o IRS e o IVA – os impostos que mais doem na plebe – cresceram 44% desde 2010); da entrada do capital estrangeiro nos sectores que contam, a terminar na banca; da utilização do não cumprimento das obrigações fiscais e contributivas para se ser “competitivo” (o stock de dívidas das à Segurança Social é da ordem dos 12000 M… mais ou menos 12 meses de pensões!)… uma situação incompreensível para amigos alemães

Claro que não há nem haverá fecho ao exterior. Aliás, Portugal é essencialmente uma economia ibérica como se pode ver aqui:

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/06/centro-e-periferias-3-portugal-uma.html

https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/03/comercio-internacional-quem-ganha-e.htm

O Japão aproveitou a reconstrução política e material do pós –guerra, teve no MITI um centro de planeamento; aproveitou a proibição de gerar forças armadas; e desenvolveu tecnologias a partir da desenvolvida nos EUA. Uma lição que a China aproveitou e desenvolveu

A Coreia (do Sul, claro) baseou-se também na ocupação militar dos EUA, dos regimes ditatoriais e uma militarização e forte repressão do trabalho (física e salarial), orquestrada por uma relação íntima entre o Estado totalitário e os chaebol.

Na última das ligações acima referidas mostra-se implicitamente que a Commonwealth pesa pouco no comércio externo da GB, para a qual só o Canadá tem relevância cimeira. A cópia CPLP é apenas um powerpoint
Claro que são os Estados que criam a moeda (no caso da eurozona, com o aval do BCE). Quer nos EUA, quer na Europa criação de moeda vem servindo para alimentar os mercados financeiros e a especulação e pouco mais. Se a moeda servisse apenas as funções – transação e referencial dos preços, crescendo em função da massa dos negócios de base real nada de mal surgiria daí. Mas, são os bancos que criam massa monetária a seu gosto e, de modo incontrolado a partir das redes informáticas. Há um ano escrevi sobre isso:

https://grazia-tanta.blogspot.pt/2018/02/os-dez-anos-de-crise-ganhadores-e.html

Quanto ao plano política doméstico, só dá para rir. Uns partidos mais à direita outros menos; nenhum é de esquerda.
Houve durante a troika a ideia peregrina (à”esquerda”) de uma auditoria à dívida e que consistia em o governo Passos criar uma instituição para a fazer !!!

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/05/a-iac-mandou-toalha-ao-chao.html

Outra é a da sua reestruturação o que subentende que é legítimo a plebe pagar dívidas de capitais de que em nada beneficiou… admitindo que ela será pagável, ahahah. No meu blog há mais de uma dezena de textos sobre a dívida (pública, privada, à segurança social…)
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Quanto à União dos Povos, claro que é uma estratégia que colocará em causa o actual ordenamento político da Europa de onde está a surgir o empobrecimento, a irrelevância geopolítica que faz da Europa um atrelado dos EUA para comprar a cangalhada militar das Boeing e ter o continente semeado com instalações militares que só dividem a Europa sob o argumento do perigo russo.

O caminho actual significa uma área comercial atrelada à China pela Rota da Seda (se os EUA não a boicotarem); uma irrelevância demográfica e racista, suficientemente estúpida perante o crescimento demográfico da Ásia e da África
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Os Estados sempre serviram – essencialmente – para financiar e apoiar os capitalistas – diretamente sob fundos comunitários, subsídios, isenções, contratos, parcerias público-privadas e corrupção: entretanto vão mantendo escolas e universidades (caras e recheadas de tipos biscateiros da classe política), um SNS que mais parece um passador de dinheiro para os privados, um sistema de justiça caro, burocrático onde só se safa quem puder pagar a advogados (os capitalistas, claro), uma tropa que serve para as missões da NATO e que deveria ser extinta, com a inclusão numa proteção civil e numa guarda costeira… em vez de se atolarem em corrupção (Tancos, os 80 envolvidos num processo na FA, os submarinos…) para além das vítimas mortais de comandos psicopatas.

(1) N.E – Omisso no texto original mas penso ser o Canal de Suez que o autor quer referir.


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Um pensamento sobre “A economia portuguesa – a causa das coisas, debate e soluções – réplica

  1. Não esperava ter o meu comentário elevado a destaque; aliás, normalmente nem espero que os leiam com muita atenção. Se estivesse à espera, bom, ainda o estava a rever com a intenção de ser mais claro e bastante menos sarcástico.
    De 75 não me lembro, ainda estava longe de acontecer o acaso que me trouxe cá, mas o que diz confere com o que vou aprendendo. Aliás, não me parecem mal nenhum dos dados que apresenta, apesar de não os confirmar, mas também não é o passado inglorioso que me fez (e faz responder).
    Sobre a economia, há um pequeno desentendimento. Eu referia-me ao facto de o resto da Commonwealth (Austrália http://dfat.gov.au/about-us/publications/Documents/australias-trade-since-federation.pdf) ter alterado a sua economia drasticamente com a súbita entrada do RU no mercado comum, mas inevitavelmente adaptando-se. Com as regras da WTO, ainda há menos adaptação a fazer, havendo, naturalmente, capital ganhador e perdedor. E isto só para dizer que, havendo capacidade, a coisa volta ao normal, com ou sem neo-liberalismo.
    O facto da banca criar crédito não implica que seja aumentado o número de bens financeiros; o deposito é acompanhado de uma dívida do banco que o estado permite que seja feita (qualquer erro na explicação é puramente da minha falta de prática na matéria – http://cas2.umkc.edu/economics/people/facultyPages/wray/courses/Econ601%202012/readings/Bell%20The%20Role%20of%20the%20State%20and%20the%20Hierarchy%20of%20Money.pdf ). E não há, ainda, nenhuma obrigação internacional (fora da zona euro, claro) que obrigue um estado a fazer qualquer favor especulativo à banca, que deve servir apenas para agilizar a economia emprestando a quem dá retorno.

    Quanto à política em si, bem como à sua análise, é evidente que de progressismo e humanitarismo tivemos muito pouco na história. Mas isto não deve levar a que fiquemos novamente no café a discutir os méritos do autonomismo versus o sindicalismo versus o anarquismo versus … (enquanto quem o tenta praticar ou é atropelado, ou torna-se ditatorial para o evitar porque continuamos todos no café). Há uma necessidade urgente de estancar e resolver o empobrecimento (cujo encobrimento pelo crédito ao consumo tem consequências que a GFC já demonstrou), onde vão surgindo “soluções” que não preciso de analisar – é um filme que não pára de se repetir. Se algum dia chegarmos ao sucessor da democracia capitalista (conceitos hoje em dia tão vagos que já nada dizem, mas adiante), óptimo, mas hoje já temos por onde começar.
    Mais importante do que isso, é urgente parar a destruição do clima, fenómeno que poderá levar a civilização e boa parte do planeta com ela. Usar a capacidade monetária para resolver os dois (Green New Deal, pelo menos o que está na mesa hoje) parece-me uma obrigação.

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