A impunidade e a mediocridade

(Por Anselmo Crespo, in Diário de Notícias, 12/03/2019)

O trio dos impunes

Metaforicamente, até podíamos classificá-los de inimputáveis. Mas isso seria, seguramente, injusto. Alguém que não pode ser responsabilizado por um facto punível, por se considerar que não tem as faculdades mentais necessárias para avaliar os atos que praticou, é muito diferente de alguém que se perpetua deliberadamente em atos lesivos, sem que disso se retirem as devidas consequências.

A impunidade remete-nos para toda uma outra discussão, sobre um país onde continua a reinar a cultura do poder pelo poder, do “favor”, do “amiguismo”, dos lóbis e das corporações. Uma cultura de quem defende o indefensável, tantas vezes por interesses negros, escondidos lá no fundo do poço. Uma cultura de quem não pune por cobardia. Ou porque tem telhados de vidro. Eis alguns exemplos:

Tomás Correia. Depois de anos de suspeitas, o “sempre-em-pé” – ou o banqueiro das sete vidas, como lhe chamou o João Silvestre, do Expresso – presidente da Associação Mutualista Montepio foi condenado por irregularidades graves (entre 2009 e 2014) e multado pelo Banco de Portugal em 1,25 milhões de euros. Não ignoremos, nem por um segundo, as múltiplas ligações perigosas que Tomás Correia alimentou durante anos, nem tão-pouco as assembleias gerais polémicas, com resultados duvidosos, raramente escrutinados por quem quer que fosse. Foquemos nesta condenação do Banco de Portugal e perguntemos a nós próprios que consequência teve ela para o principal visado? Nenhuma. Tomás Correia, que governa a mutualista com mão de ferro há mais de dez anos, não só continua à frente da instituição como ainda está a ponderar uma recandidatura. Pior: num golpe de rins (há quem lhe chame palaciano), ainda conseguiu na 25.ª hora fazer aprovar em assembleia geral que toda e qualquer multa que lhe seja aplicada enquanto administrador seja paga… pelo banco Montepio. Como se as contas do banco não fossem já suficientemente problemáticas, Tomás Correia ainda sobrecarregou as de 2018 com mais 1,25 milhões de euros.

Sobre a idoneidade do condenado, ninguém parece ter competência para agir. Nem Banco de Portugal, nem Ministério da Segurança Social, nem tão-pouco o regulador dos seguros. É como se Tomás Correia beneficiasse de um estatuto especial, em que a lei, sobre ele, é omissa. Talvez porque Tomás Correia é de facto “especial.”

Para dizer o que se segue, não é preciso especular. Os factos bastam. Luís Almeida, dado como um sucessor natural para Tomás Correia, já esteve ele próprio a ser investigado pelo Banco de Portugal. Depois, no conselho de administração da Associação Mutualista Montepio, figuram dois proeminentes socialistas: Carlos Morais Beato e Idália Serrão. O presidente da mesa da Assembleia Geral é o padre (próximo do PS) Vítor Melícias. E, se calhar, não é preciso continuar a dar mais exemplos.

Tomás Correia é hoje um dos expoentes máximos da impunidade reinante em Portugal. Preso pelos arames políticos e dos que têm ganho muito dinheiro à custa dele, o poder que lhe permite continuar de pé não lhe vem seguramente do cargo que ocupa, mas da informação que guarda e que poucos parecem interessados que seja colocada cá fora.

Carlos Costa. As suspeitas não se comparam às de Tomás Correia, mas a impunidade compara-se. Em quase nove anos no cargo, o homem a quem o país confiou a supervisão do setor financeiro conseguiu assinar a sentença de morte do BES para, num ato genial, fazer nascer dois bancos: “um mau e outro péssimo”, nas palavras do próprio governo. Foi incapaz de antecipar o colapso do Banif, que nos custou a todos quase três mil milhões de euros. E, mais difícil ainda, permitiu que a jóia da coroa, a Caixa Geral de Depósitos, chegasse a uma situação de quase insolvência, com todas as consequências que ainda hoje estamos a pagar.

O cheque do mandato de Carlos Costa que nos foi passado, a nós contribuintes, continua em branco: à espera de que alguém lhe coloque um valor definitivo e que fiquemos todos a saber quanto nos custaram os dislates de uns e a cegueira – ou a incompetência – de outros.

E enquanto esse cheque não é preenchido, Carlos Costa lá continua sentado na cadeira de governador. Nomeado por um governo PS, reconduzido por um do PSD e do CDS, Carlos Costa está hoje completamente blindado pelo poder do Banco Central Europeu, indiferente à pressão política e pública, para que ponha a mão na consciência. Impune. Como se nenhuma consequência houvesse a retirar.

Neto de Moura. A primeira estupefação é termos de continuar a chamar-lhe juiz. Depois dos acórdãos que escreveu, depois das vítimas que deixou indefesas, depois da verborreia na comunicação social que só deixa ainda mais claro que Neto de Moura não tem condições para continuar a julgar. Seja o que for. Seja quem for.

A impunidade – alimentada pelos seus – foi total durante vários anos. Nunca ninguém tinha estranhado os acórdãos de Neto de Moura. Nenhuma fiscalização o tinha apanhado em falso. Nenhum superior encontrou qualquer motivo para o punir. Para o travar.

Perante as denúncias na comunicação social e a pressão pública, primeiro decidiu aplicar-se ao juiz uma advertência por escrito e agora transferi-lo do crime para o cível. O problema é que nenhuma destas duas “punições” resolve o essencial: continuamos a ter um juiz que julga e decide de acordo não apenas com a lei, mas com os seus preconceitos morais. E que, no final, espera “que nada de mal aconteça” às mulheres que deixou indefesas. A impunidade, no caso de Neto de Moura, manter-se-á enquanto ele for juiz.

Na justiça, na política, nas empresas, nos bancos, no país, a inconsequência perante os atos falhados, perante a incompetência, perante os atos criminosos arrasta-nos para uma sociedade mais medíocre. E a mediocridade apodrece-nos por dentro.


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4 pensamentos sobre “A impunidade e a mediocridade

  1. Mas, ó Anselmo, você queria antes o “socialismo de miséria” , “à cubana” ou “à chinesa”, em vez deste “socialismo” que o vigarista e maior chalatão político do já defunto, que vendeu este jardim à beira mar plantado aos yankees vampirescos do petróleo, quando o Frank Carluchi lhe mandou “calar a boca” (ou cloaca) sobre o que se tinha passado no Chile com a morte assassina do Salvador Allende, porque o dito charlatão tinha prometido no seu discurso no 1° de Maio de 1974, no INATEL, denunciar o golpe fascista do Pinochê apoiado pelos “nossos amigos norte-americanos”????…
    Será que o Alsemo (e todos os outros “Anselmos” que por aqui e ali vão chorando lágrimas de corcodilo) não se dão bem com o “socialismo em liberdade”, o da “Europa connosco”?!?!….é que esse apregoado legado (desse canalha defunto que se livrou já de ser julgado pelo Zépovinho Luso pelos crimes que cometeu) é o mesmo legado que o actual Chefe do Governo prometeu (na campanha em que levou o pobre do bem intencionado Seguro ao tapete) dar continuidade e para isso se candidatava à liderança da seita lá do Largo do Fato. E conseguiu. E não só se safou de ter terminado a sua (brilhante) carreira política, como é PM e com fortes probabilidade de continuar a ser, provavelmente até com mais votos, mesmo que o seu governo apoie criminosamente o que os yankees, ávidos do petróleo do planeta, pretendem fazer na Venezuela e já fizeram no Brasil, Argentina, etc., etc.
    Por isso, meu caro Anselmo “aguente” mais um pouco, pois essa do “aguenta” “aguenta” é uma característica do POVO Luso. E se o Senhor não se sente bem em Portugal, emigre pois agora nem precisa passaporte para sair!…
    É que o capitalismo tem dessas coisas, meu caro!…E mais o que irá a seguir e mais breve do que se possa pensar, eu acho!….

  2. Anticapitalista Incorrigível

    Depois dessa “dôr de alma” em que você, verrinoso e vingativo, estrebucha, talvez saudoso da “liberdade” que durante 48 anos, uma pide e uma guerra colonial infames e assassinas, constituiram “o legado” que o “manholas”, esse canalha defunto “proporcionou” aos Portugueses !

    E de tal modo “chora lágrimas de “cORcodilo” por esse passado “brilhante”, afunda-se no exercício cego, soez e destemperado do ataque à Democracia e, do alto da sua “sapiência”, tem a empáfia descarada dos medíocres, de tentar, sem êxito, passar atestado de estupidez a todos “os Anselmos” que, porventura, estejam de acordo com o texto de Anselmo Crespo !

    E, como é claro e óbvio, sobre A IMPUNIDADE E MEDIOCRIDADE que, essas sim, são o tema fulcral do texto, nem uma palavra…

    Não se sente atingido, nem prejudicado, mesmo à distância, pela impunidade e mediocridade dos nomes citados ? Concorda com elas ?

    ENTÃO…AGUENTE ! AGUENTE…

    Porque, apesar de tudo o que de mal encontra no “socialismo em que vivemos”, a emigração que aconselha a outrém , pelos vistos não está nos seus planos !

  3. Senhor Anselmo “Escabroso” . :

    Vejamos os factos relativos ao escabroso adultério a que se refere o não menos famoso “Acórdão Neto de Moura” que também se poderia denominar com “Acórdão do Adultério” . A casada com B , têm uma filha que B sustenta. A tem uma relação adúltera com X , não consentida por B e pondo em risco a “segurança e higiene sexual do casal” . Entretanto A cessa a relação com X . Este por vingança divulga naquele pequeno meio provinciano vídeos com cenas sexuais de A e X . B enlouquece e é internado no “Manicómio” donde foge contra indicação médica. A e B separam-se . Decorridos 3 meses , X encontra-se com A e telefona a B , sequestrando A . B desloca-se ao local do encontro e insulta e agride A com uma “moca de rio maior” (que o “politicamente correcto” falsamente refere com a assustadora denominação de “um pau cheio de pregos” ) , ocasionando-lhe apenas 8 exagerados dias de incapacidade para o trabalho. Note-se que se tratou de um crime de sequestro , injúrias e ofensas corporais e não de violência doméstica como erradamente tem sido dito na órbita do “politicamente correcto” . Violência Doméstica existiu , sim , no crime praticado por A de ofensas psíquicas a B , estranhamente ignorado por todos os intervenientes . E A não é nenhuma “santa” pois é arguida(ré) num processo crime por obrigar a filha a mentir em Tribunal contra o próprio Pai !…
    Vejamos agora o “Acórdão Neto de Moura na Relação do Porto” . B e X são condenados na 1ª Instância com penas de prisão (suspensas por legalmente serem arguidos primários) e multas . A “feminista” Delegada do Ministério Público recorre para a Relação do Porto. Colegialmente , Neto de Moura e ainda uma Juíza , e o Delegado do Ministério Público ( que defende a aplicação da Lei , concordam com a decisão da 1ª Instância . Neto de Moura apenas censurou o adultério . A já não recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça (S.T.J.) .
    Mas o “Politicamente Correcto” – como V. Exa. – pretendia que B , sustento da filha , fosse para a prisão. E com sofisma só lhe resta atacar Neto de Moura, acusando-o de ter desvalorizado aquela violência doméstica , aliás inexistente pois se tratou de um crime de sequestro, injúrias e ofensas corporais .
    Então , o “politicamente correcto” tornou-se efervescente . Duas Associações feministas de Juízas apresentaram queixa no Conselho Superior da Magistratura (C.S.M.) . Este encurralado em tal efervescência mas com a votação empatada , com o voto de qualidade do Dr. António Piçarra , Presidente do C.S.M. e também do S.T.J. , foi aplicada a ora inédita pena disciplinar de “Advertência” , não obstante o Relator do Processo ter proposto o arquivamento . Mas censurar o adultério já é ofensivo para a Mulher adúltera ? Isto só pode surgir de um Juiz empedernido denominado Dr. Piçarra que por isto decidiu punir disciplinarmente Neto de Moura que logo recorreu para o S.T.J. . Um Juiz já comentou que em Portugal há um grupo de Juízes(as) formados(as) nas Redes Sociais . Estando em causa a Independência dos Juízes , voltamos ao fascizante passado salazarento. Em Portugal , no Governo ou na Justiça , passou a vigorar a Lei do “Politicamente Correcto” ao ritmo das Redes Sociais . E assim o “buraco” onde vamos cair já não está longe e à vista de quem não é míope ?
    Temos um Povo “sui generis” !…( de V. Exa. faz parte) Na Praça Publica injuria um Juiz que é obrigado a aplicar a Lei , em vez de criticar os seus eleitos que fizeram esta Lei mas isso seria reconhecer a sua estupidez eleitoral .
    Curiosamente , o mesmo Presidente do S.T.J. que havia recusado a Neto de Moura o seu pedido de escusa em julgamentos de violência doméstica por o considerar competente é o mesmo que como Presidente do C.S.M. lhe aplica aquela pena disciplinar .
    Estúpido ? Ignorante ? Navega ao sabor da corrente ? Ingénuo ? Caixa de ressonância ?
    Escolha , entretanto tenha juízo .

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