Textos de Circunstância – Reflexões sobre Portugal e a causa das coisas

(Por Vítor Lima, in Grazia Tanta, 07/03/2019)

Sumário

A – CONHECEM A ECONOMIA DO SOLAVANCO?

B – PORQUE ESTÁS MAIS POBRE, DEVIAS ESTAR MAIS ATIVO CONTRA “ELES”

C – ESTADO – NAÇÂO E DEMOCRACIA

D – O PROJETO AEROPORTUÁRIO DOS GANGS

E – COISAS QUE ACONTECEM EM PAÍSES DA TRETA

F – A AUTORIDADE TRIBUTÁRIA E O DESBASTE DA FLORESTA

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

A – CONHECEM  A ECONOMIA DO SOLAVANCO?

Na paróquia lusa vive-se de surtos investidores, de para-arranca ou do arranca para logo parar. O que não para é o crescimento da punção fiscal enquanto os rendimentos do trabalho patinam.

1 – No surto do final dos anos 90 foi a Expo-98. E o Parque das Nações que estava projetado para ser um negócio lucrativo conduziu ao fecho da Parque-Expo, recentemente, com um prejuízo superior a € 200 M; e que entretanto cobrava o abastecimento de água aos moradores, explorados com taxas exorbitantes.

2 – A construção da Ponte Vasco da Gama, ficou fora do local mais conveniente (Barreiro-Chelas) e sem ferrovia, por influência de um motard e colecionador de mapas antigos travestido de ministro (Ferreira do Amaral). Ficou célebre e com direito a Guiness a grande feijoada inaugural promovida por Guterres. Feijão e circo, uma inovação lusa.

3 – Seguiu-se a febre investidora dos dez estádios de futebol para ancorar a economia do evento – um campeonato de futebol – e eles aí estão, muitos deles imprestáveis, com relva não pisada.

4 – Também aconteceu a penúltima dança em torno dos locais para o novo aeroporto de Lisboa, da Ota para Alcochete e de Alcochete, num voo curto que durou uns dez anos, para o Montijo; dentro da lógica improvisada que carateriza as governanças. E a plataforma logística do Poceirão deu em nada.

Agora vive-se a euforia dos portos e das dragagens

5 – Sines, não fora a visão dos singapuranos continuaria sem contentores. Projeta-se uma ligação ferroviária a Madrid, na esperança que os madrilenos esqueçam Algeciras, Bilbao, Valência ou Barcelona na sua ligação ao mar; tudo isso, num contexto global que se avizinha, algo depressivo, em torno do Brexit e das sanções que Trump vai distribuindo, como as cartas de um baralho.

6 – Em Setúbal vão dragar junto à margem norte do estuário 6 M m3 para albergar dois enormes Panamax em simultâneo; à parte os enormes efeitos ambientais, não sabemos que crescimentos de tráfego (e quais) justificam tal obra. A megalomania tem uma longa história; em tempos recuados houve um plano para que Faro movimentasse 500000 t de carga!

7 – Como as dragagens estão na moda, depois de abandonada a ideia peregrina de movimentar contentores na Trafaria, os ditos irão ser transferidos para o Barreiro, ao fundo do mar da Palha, com enormes e regulares dragagens a fazer, com impactos brutais na fauna.

Com tanta fartura, o pobre – que irá pagar a euforia – desconfia. Alguns empresários da obra pública, bem instalados no municiamento das governanças, rejubilam. Talvez se deva incluir na festa a empresa de consultadoria que tem como sócias Ana Paula Vitorino (ministra) e Lídia Sequeira (chefe do porto de Setúbal).

E assim vai Portugal – diz o Fausto – alguns vão bem e muitos mal

B – PORQUE ESTÁS MAIS POBRE, DEVIAS  ESTAR  MAIS  ATIVO  CONTRA  “ELES”

O que acabou com o poder de compra dos tugas foi:

1.    Um encargo de 800 € anuais/pessoa com a dívida pública para colmatar as burlas bancárias e dos seus clientes de topo; no entanto, há muita gente a acreditar que a dívida é reestruturável quando ela “apenas” é uma forma de domínio do capital financeiro global sobre o povo em geral[1]. Uma dívida que se eterniza e abrangerá gerações deixa de o ser; passa a ser base para uma renda!

2.       O que retira poder de compra é um aumento, face a 2010, de 44% da receita fiscal com o IRS e outro tanto com o IVA, com as remunerações do trabalho a crescerem menos de 2%. Que fazem os sindicatos na chamada Concertação Social? Esta serve apenas para legitimar o saque dos trabalhadores.

3.   Há muitos problemas estruturais – o regime político corrupto, uma classe política homogénea e oligárquica, um empresariato de ignorantes, a ausência de um sistema financeiro, um aparelho de Estado inútil que não para financiar os ditos empresários e uma total ausência de democracia bem evidente na própria Constituição [2].

4.  Portugal é apenas um corredor por onde passam os fluxos dos negócios das multinacionais e os capitais mafiosos. Já o Eça dizia que Portugal é apenas um sítio enquanto a Lapónia nem sítio é. Do ponto de vista global, Portugal é tomado como um apêndice barato de Espanha (onde a hora de trabalho é paga a 16 dólares contra 9 em Portugal).

5.      E desenganem-se quantos acham que um encerramento autárcico, com o regresso de fronteiras traria a bem aventurança eterna. Com uma moeda própria, em constante desvalorização, a inflação comeria os nossos rendimentos e, certamente os combativos (?) ditos sindicatos saberiam dar porrada nos trabalhadores para que a economia “nacional” se aguentasse… como aconteceu em 1975, com a “batalha da produção”. O modelo do baixo salário, da moeda própria, de uma falsa “soberania nacional” acabou após o falhanço da adaptação ao modelo produtivista keynesiano, quando o projeto ancorado na indústria química e na metalúrgica pesada – que era o sonho do Caetano – se afogou com a reabertura do Canal do Suez em 1973. 

6.  De modo mais lato, estratégico, ou se monta uma união dos povos europeus, democrática, sem oligarquias partidárias, por natureza corruptas (ou a caminho da corrupção), baseada na satisfação das necessidades das pessoas e não no demente crescimento do PIB e nas desigualdades que conhecemos, às mãos do binómio burocratas europeus – classe política nacional ou…serão montados regimes musculados para garantir a perenidade do capitalismo.

C – ESTADO-NAÇÂO  E  DEMOCRACIA

1.   Um estado-nação exige fronteiras e um aparelho para as defender – o Estado. Os Estados exercem poder, particularmente sobre aqueles que dizem defender – através de polícias, tribunais, dos apoios aos empresários (são eles que criam …empregos e desemprego), da repressão sobre o trabalho, da obrigação do pagamento da sua (do Estado) dívida e das mordomias auto-outorgadas pela classe política. 

2.       O Estado é o instrumento essencial da corrupção, legitima a lógica da hierarquia e da obediência e assume-se como fonte da legitimidade que “por acaso” é construída por uma classe política em relação promíscua com os ditos empresários e refletindo as vontades de outras oligarquias (nacionais ou plurinacionais) sobre a plebe doméstica.

3.       Nenhum Estado na História foi construtor de democracia. Só existem Estados mais ou menos opressores, mais ou menos corruptos.

4.       No século XIX surgiu a ideia de “um Estado a cada povo” o que era pensado para a Europa do Leste mesmo que ali, as misturas fossem de tal ordem que só com brutais deslocações isso seria possível e, jamais de forma pacífica. Isso observou-se pelo conteúdo do termo “balcanização” – fragmentação extrema entre pequenas e hostis entidades e, recentemente após o desmembramento da Jugoslávia.

5.       Hoje, a esmagadora maioria dos estados-nação são pluriculturais, pluri-étnicos e pluri-religiosos e o princípio exarado no século XIX não é aplicável. O caso mais sinistro dessa aplicação foi a criação da entidade sionista e a sua continuidade, em terras palestinianas.

6.  Portugal é um caso raro de relativa homogeneidade. Porque, sendo periférico, estabilizou há séculos as suas fronteiras; e depois, porque a Espanha se virou sempre mais para o Mediterrâneo (Itália) e as Américas do que para a raia seca, a Oeste.

7.       Por outro lado, o que diferencia de relevante, um espanhol, um turco ou um senegalês? Como dizia Spinoza, todos somos iguais nas coisas essenciais – todos precisamos de comer, de ter abrigo, educação, saúde e paz. E, nada disso se consegue isoladamente, apenas em cooperação; e, de forma pacífica, jamais sob coação.

8.       No contexto do ponto anterior, que sentido fará, um dia, o “meu” Estado me obrigar a guerrear as pessoas de outro local qualquer, que não conheço, nem me fizeram mal algum? Porque têm o azar é terem riquezas cobiçadas pelos “meus” capitalistas? Recordemos o internamento durante a II Guerra de 100000 japoneses étnicos nascidos nos EUA ou as mudanças na antiga Jugoslávia e os ódios entretanto gerados após as partilhas entre aquela longa mistura de culturas ou ainda, o drama do rohingyas num Myanmar que tem dezenas de etnias.

9.     Hoje sabemos que as raças não existem, que somos todos da espécie homo sapiens com 2 a 4% de genes neanderthalensis… o que não traz dissemelhanças nenhumas. Precisamos antes de ser solidários para a resolução das necessidades comuns, com decisões em conjunto, democraticamente, sem chefes, autoridades ou ungidos, ignorando fronteiras ou nacionalidades, convivendo numa paleta de religiões, tradições, culturas, cores de pele, orientação sexual, etc.

10.    A História tem sido muito marcada por conflitos, guerras, exploração, discriminações ou ofensas ambientais. E o estado-nação, criação do século XVI, tem o seu enterro marcado[3] no âmbito da densificação da matriz de relações entre os seres humanos, que se não confinam a espartilhos fronteiriços e pertenças nacionais, impostos por capitalistas e seus agentes políticos; sobretudo numa Europa já muito integrada apesar de retalhada em muitos pequenos talhões.

11. Quanto à UE, como oligarquia, como super-estado e, para mais com pendores homogeneizadores e autocráticos, que morra para que se desenvolva uma União dos Povos da Europa, com as caraterísticas acima definidas. Faremos de bom grado o enterro dos seus oligarcas políticos ou financeiros.

D – O  PROJETO  AEROPORTUÁRIO  DOS  GANGS

1.      Em regra, qualquer projeto lançado pelos governos envolve bestialidade e “negócios”; é regra do capitalismo em geral a simbiose entre classe política, finança e grandes empórios globais, como a Vinci.

2.     Cerca de 50 anos após o primeiro equacionamento da construção de um novo aeroporto, surge a decisão (até ver) final – maior capacidade para o Aeroporto de Lisboa, um anexo no Montijo e, mais distanciado no tempo, um novo aeroporto, de raiz.

3.   Tanta fartura de capacidade aeroportuária tem subjacente a continuidade (se não mesmo um maior volume) da enorme bolha turística-imobiliária ainda em curso o que permite a “criação de postos de trabalho”, chavão de propaganda que … por acaso… é sempre omisso quanto a qualificações e salários de quantos os irão preencher.

4.       Não há bolhas que não rebentem, como se viu recentemente no descalabro da banca portuguesa; e, como se viu e ainda se vê, quem a está a pagar (via dívida pública). Quando as redes mundiais do turismo inventarem um novo destino de moda, como será?

5.       Para favorecer e cumprir os deveres da velha mancebia governo-empresas de obras públicas programam-se investimentos enormes e com um valor entre o ignoto e o duvidoso. A Vinci através da ANA terá sempre o investimento assegurado; satisfazem os interesses dos seus acionistas e delegarão nos governos portugueses de turno a apresentação da fatura aos indígenas. 

6.    Depois da transformação do território da paróquia lusa, na área europeia com mais quilómetros de autoestradas por km2 e da criação das famosas parcerias público-privadas para garantir lucros a amigos e conhecidos (da obra pública e da área financeira) é preciso inventar um novo surto de negócios. Cavaco, Guterres e Sócrates foram muito ativos nessas áreas e Costa também quer ficar no retrato.

7.       Depois do abandono da via ferroviária para um mini-operador na área dos passageiros (Fertagus) e da carga (uma transnacional), a saloia governança de serviço borrifa-se no TGV e numa ligação decente até Madrid, como parte de um acesso à Europa transpirenaica; para não falar na descapitalização da CP (Xi Jiping irá em breve tomar conta do resto que seja rentável?). 

8.       Em termos de aeroportos já existe um mono em Beja, ao qual nunca deram serventia decente; como também não se percebe a razão de ser de tantas bases aéreas militares (incluindo ou não a do Montijo).

E – COISAS  QUE  ACONTECEM  EM  PAÍSES  DA  TRETA

1.     A Cimpor pertenceu em tempos a um “empresário” português de topo – Teixeira Duarte – que a vendeu à brasileira Camargo Correia que precisava de cimento para os eventos farónicos da Copa do futebol e dos Olímpicos e cujo efetivo rescaldo dá pelo nome de … Bolsonaro.

2.  Agora passa para um poderoso grupo turco porque ao que parece nenhum dos fabulosos e patriotas magnatas lusos se chegou à frente.

3.     Como habitualmente se diz, Portugal é apenas um corredor atravessado pelas redes das multinacionais e onde vivem uns 10 M de indígenas espoliados por empresários de merda alimentados pelos favores da classe política que cobra (e bem) as devidas comissões.

F – A  AUTORIDADE TRIBUTÁRIA  E  O  DESBASTE  DA  FLORESTA 

1.       No tempo do fascismo existia a Pide para vasculhar a vida de toda a gente; no regime pós-fascista actual existe a tentacular AT – Autoridade Tributária que, para além do crescente saque fiscal recolhe informação sobre os consumos das pessoas, as suas contas bancárias (tornadas obrigatórias), os seus registos na Segurança Social, no SNS e, ainda através de vários cruzamentos de bases de dados, a nossa utilização das autoestradas, da hotelaria, etc. Sem esquecer as multas e as coimas, estas últimas, um termo repescado nos tempos medievais pelo regime pós-fascista;

2.   O NIF é atribuído à nascença, com a primeira fralda, coisa que não ocorreria à tenebrosa Pide; e é-nos solicitado mais vezes esse código do que o nosso nome. Habituem-se à ideia de que cada um de nós não passa de um conjunto de nove dígitos, a porta aberta para todas as devassas estatais, bancárias e empresariais; para todos os perigos de imposição de impostos, taxas e contribuições, penhoras e hipotecas, num mundo pilhado pelas empresas globais de recolha de dados, como ainda pelas empresas de serviços informáticos que enformam ou fazem a manutenção das bases de dados. 

3.    Já quanto a empresas e empresários, a AT é mais tolerante, mostrou-se menos expedita na recolha de dados sobre os movimentos com os offshores – pelo menos no tempo do Núncio (PSD); como é mais branda em para obviar às fugas e à gestão fraudulenta nas empresas uma vez que aí participam advogados que, por coincidência (?), são os mesmos que elaboram a legislação relevante, por encomenda dos governos. 

4.      Qualquer comparação com a Pide, envergonharia os criminosos daquela polícia como meros amadores.

Há poucos anos passaram a designar a velha Direção-Geral dos Impostos, por Autoridade Tributária, para vincar o caráter intratável e repressivo do regime pós-fascista para com a plebe. O actual regime, não podia aceitar que uma Direção-Geral dos Impostos, com tão largas prerrogativas no escrutínio e espoliação fizesse lembrar uma Direção-Geral de Segurança, epíteto com que o padrinho do actual PR batizou a velha Pide. O Big Brother acompanha-vos mais do que os anjos da guarda.

5.      Esta longa introdução serve para comentar a entrega à AT da comunicação sobre as ações e obrigações introduzidas para a limpeza das florestas depois dos desastrosos incêndios ocorridos recentemente em Portugal. Na mensagem enviada apontam-se as obrigações da plebe relativas a todo o coberto vegetal sob a ameaça das habituais coimas que podem atingir € 10000 para as pessoas e € 120000 para as empresas. Trata-se de mais uma demonstração das caraterísticas totalitárias e cleptocráticas do Estado pós-fascista, a utilização da máquina da punção fiscal para ações de limpeza da floresta a que o regime nunca deu relevância; não esqueçamos que em breve haverá eleições…

6.     A recente preocupação do regime com os fogos incorpora uma tirada desajustada e mesmo hilariante que transcrevemos:

“Corte os ramos das árvores até 4 metros acima do solo e mantenha as copas afastadas pelo menos 4 metros umas das outras (10 metros no caso de pinheiros e eucaliptos).”

Será que o legislador nunca viu um pinhal ou eucaliptal? Quantos casos haverá em que as copas daquelas árvores se poderão situar a mais de 10 m umas das outras? Será que está implícito na fatwa emanada da AT uma radical desflorestação da paróquia com a sua substituição por campos de golfe ou aldeamentos turísticos?

Fonte aqui


Advertisements

3 pensamentos sobre “Textos de Circunstância – Reflexões sobre Portugal e a causa das coisas

  1. « Com uma moeda própria, em constante desvalorização, a inflação comeria os nossos rendimentos»
    Muitos já o disseram, ninguém o provou; as 3 coisas não estão, de todo, ligadas. Felizmente, parece que a alternativa começa a fazer ondas a partir de dos Estados Unidos, para pasmo mundial.

    «ou se monta uma união dos povos europeus»
    Uma união económica entre a Alemanha e a Holanda por um lado, e Portugal e Espanha, no outro, para não ir ao leste, não é uma união, é uma farsa. Mas há mais possibilidades do que o caos a 28 e lutar sozinho. De resto, reformas na eurolândia só no sentido da austeridade, o resto é populismo e irresponsabilidade. Lá vai havendo um DiEM ou um EPSR para um gajo se rir da esquerda responsável de vez em quando.

    « Por outro lado, o que diferencia de relevante, um espanhol, um turco ou um senegalês? »
    A cultura, que não se integra só porque sim. Nem com a existência de UE há décadas os Alemães e os Franceses passaram a concordar nalguma coisa.

    «Qualquer comparação com a Pide, envergonharia os criminosos daquela polícia como meros amadores.»
    Os libertários telefonaram, querem as suas analogias de merda de volta, adoram o cheiro.

  2. Sobre a moeda

    Há países com moeda forte, que tem procura no exterior e países com moeda que só tem procura no seu espaço nacional

    Suponhamos um Portugal com moeda própria.

    1 – Ou tem uma economia forte, com boa produção de bens ou serviços sofisticados e geradores de rendimentos elevados e a sua moeda é aceite no exterior (caso Suiça) ou não tem essa aceitação mesmo que tenha uma economia sofisticada (Suécia, Dinamarca)

    2 – Ou tem uma economia fraca, produtora de bens e serviços não sofisticados cuja venda ao exterior tenderá a servir para comprar bens sofisticados (equipamentos ou de consumo, como por exemplo a enorme importação de automóveis)

    No tempo do fascismo, a moeda tinha uma cotação relativamente estável porque a procura de bens importados era escassa ou, mais tarde porque as remessas dos emigrantes pagavam as melhorias no consumo das pessoas
    As intervenções externas em 1977, 1983/85 foram acompanhadas de desvalorizações e inflação que chegou aos 28% em 1984 (de memória) e, a falta de remessas ao nível anterior foi compensada pelos fundos comunitários, daí para a frente

    Percebeu-se que a fragilidade económica e financeira portuguesa não permitiria uma réplica da Suíça e daí a integração na UE e no euro. Na altura, somente o CDS, numa fase inicial e o PC até hoje estiveram contra; no último caso com essa coisa duradoura e que só em Portugal não soa a ridícula como a “política patriótica de esquerda”, cuja escalpelização será um tema bem divertido para outra ocasião

    Portugal é um país com uma enorme abertura ao exterior – no caso do povo, bastante antiga – um bom deficit comercial, um baixo nível no perfil educativo, empresários de treta, altos níveis de fuga de capitais e um aproveitamento desconexo da mão de obra barata por parte de capitais estrangeiros

    Num contexto de moeda própria, a procura desta no exterior seria nula e a procura interna de moeda forte elevada; daí valorizando-se estas e desvalorizando-se a primeira

    Os exportadores portugueses o que fariam? Cobrando fora em moeda forte viriam a correr para a trocar pela moeda nacional ? Não iriam deixar fora o possível de moeda forte integrando no espaço português o estrito necessário para continuar o negócio? Inversamente, os importadores inflacionariam o valor a pagar aos seus fornecedores para desviarem moeda forte (saída do país). No turismo, tradicional área de economias paralelas, a subtração de registos de faturação seria ampliada, contribuindo para um florescente mercado paralelo em Portugal; entretanto desligado do Eurostat, do BCE, em pista própria

    Saindo da UE, Portugal ficaria de fora da actual liberdade de circulação de bens e capitais, (sem falar dos emigrantes), o que dificultaria as exportações; sem reduzir as importações a não ser que se enveredasse por um regime autárcico e repressivo

    Seria gerado em Portugal um conjunto de transações em moeda nacional e um outro em moedas fortes; ficando discriminadas as pessoas sem acesso a moeda forte; nomeadamente a maioria dos assalariados – funcionários, professores, operários… todos quantos não tivessem um contacto direto com transações com o exterior

    Por outro lado, onde e quem iria financiar a economia portuguesa? Os valentes empresários e os gatunos oriundos da classe política repatriariam os fundos que têm nos offshores? Duvido

    Sem o amparo de um BCE onde chegariam as taxas de juro para financiamentos correntes e a reciclagem da dívida pública e privada?

    Os desequilíbrios reais nas entradas e saídas de dinheiro teriam impactos na inflação, como forma de “equilibrar” os fluxos; e a inflação atingiria negativamente todos quantos vivem do trabalho ou não podem repercutir as subidas da inflação.

    Sobre o euro há duas posições de colegas bem conceituados que são interessantes:

    O Ferreira do Amaral, que designo por nacionalista romântico, falou pouco da inflação nos seus livros. Quando o questionei pessoalmente sobre isso, rematou, sintomaticamente com um “pois isso seria um problema”
    Quanto ao Louçã vai apresentando posições de acordo com a conjuntura política. No início da crise da troika, defendia a manutenção na UE e no euro, discordando por exemplo do Pais Mamede. Mais tarde publicou dois livros com o Ferreira do Amaral na defesa de um Portugalexit. Mais recentemente afirmou que o fim do euro seria um desastre para Portugal; percebe-se, como conselheiro de estado terá de ter uma postura “responsável”.
    O PC, nesta questão tem sido mais coerente, tendo-se colado a Ferreira do Amaral, há poucos anos para defender a sua dama

    Para finalizar este ponto. Se a moeda própria fosse uma solução para a saída do empobrecimento, do caráter periférico e até dos capitalismos regionalizados, há muito Trás-os-Montes teriam declarado a independência

    – – – –
    Sobre a União dos povos europeus

    Distingo totalmente a UE dessa União. O estado-nação tem sido um verdadeiro calvário para a existência dos povos e para o caudal de guerras desde a sua real formação no século XVII, na sequência, como herdeiro dos territórios das diversas casas dinásticas. Não nos devemos enrolar na lixeira da conjuntura e das corruptas classes políticas

    A União dos povos europeus é uma ideia de superação das pátrias, dos nacionalismos, do capitalismo, dos tentaculares e opressivos aparelhos de estado, provavelmente mais viável na Europa, do que em outros continentes, tendo em conta o entrosamento entretanto gerado entre os povos – migrações, Erasmus, internet, turismo.É um projeto de constituição de solidariedade entre os povos, sem prejuízo das suas culturas próprias

    – – – –

    Sobre a comparação entre a Pide e a AT

    Não percebo o comentário mas renovo a ideia de que o controlo das pessoas em Portugal por parte da tentacular e invasiva AT vai muito mais longe do que a da Pide que, por várias razões a maioria das pessoas não sentiam na pele a sua atuação. Bastava-lhes serem eunucos políticos para que a Pide os não chateasse; perante a AT e o aparelho de estado, soberanamente utilizado pela classe política, ninguém escapa à sua supervisão, eunucos políticos ou não

    Para finalizar , Gedeão

    Sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.