O euro de Mário Centeno como “veículo de prosperidade” – O mito e a realidade

(Por Eugénio Rosa, in Resistir, 12/01/2019)

mario_centeno

Para Mário Centeno, o euro deve ser “um veículo de prosperidade para os cidadãos europeus”. ( Jornal Negócios, Dez/2018). E como prémio pelo seu apoio fervoroso, a revista The Banker, do Financial Times, ligada à alta finança inglesa (City of London) considerou “o ministro das Finanças português Mário Centeno como o melhor ministro das Finanças do ano (2018) na Europa”, o que foi depois repetido acriticamente por todos os grandes órgãos de informação portugueses e pelos opinion makers que têm acesso fácil aos media, condicionando fortemente a opinião publica nacional. No entanto, o que é bom para os grandes grupos financeiros pode não ser bom nem para Portugal nem para os portugueses. Por isso, interessa analisar com objetividade se o euro tem sido um veículo de prosperidade para os portugueses, o que tem acarretado para o nosso país estes 20 anos de euro, ou melhor, qual é a situação de Portugal e dos portugueses ao fim de 20 anos de euro, e quais os desafios e as dificuldades que os aguardam no futuro. Para isso, vamos utilizar a linguagem objetiva dos dados oficiais. Esta análise, até por limitações de espaço, vai-se limitar a alguns (poucos) aspetos importantes que condicionam o presente e o futuro dos portugueses e de Portugal.

A EVOLUÇÃO DAS CONDIÇÕES DE VIDA DOS PORTUGUESES EM COMPARAÇÃO COM OS DA ZONA EURO SEGUNDO O EUROSTAT, O SERVIÇO OFICIAL DE ESTATISTICA DA UE 

O gráfico 1, com os dados divulgados pelo Eurostat, mostra com clareza como tem evoluído as remunerações dos trabalhadores portugueses em comparação com a média das remunerações dos trabalhadores da Zona Euro, constituída por 19 países.

Gráfico 1.

Segundo o Eurostat, em 2008, a remuneração/hora de um trabalhador em Portugal correspondia 47,3% da média da Zona euro; em 2011 representava já apenas 45,3%; em 2015 somente 41,4% e, em 2017, 41,8% da média das remunerações dos trabalhadores da Zona Euro, ou seja, menos de metade. Eis o “veículo de prosperidade”, para utilizar as palavras de Centeno, que tem sido o euro para os trabalhadores portugueses.

No 3º Trimestre de 2018, segundo o Inquérito ao Emprego do INE, 950.000 trabalhadores (26,2% do total) recebiam mensalmente menos de 600€ e 2.342.500 trabalhadores portugueses (64,7% do Total) levavam para casa menos de 900€ por mês. Eis também o resultado, em números, do “veículo de prosperidade” de que se gaba Mário Centeno.

O AGRAVAMENTO DA DESIGUALDE NA REPARTIÇÃO DA RIQUEZA EM PORTUGAL 

E se completarmos este quadro com outros dados sobre a parte da riqueza criada que reverte para os trabalhadores tanto em Portugal como nos países da Zona euro, ou seja, como se reparte a riqueza criada no nosso pais e nos países da Zona Euro, o retrato fica ainda mais claro e completo. E para que não hajam dúvidas que não estamos a manipular a realidade vamos continuar a utilizar dados divulgados pelo insuspeito Eurostat que é o serviço de estatísticas oficiais dos governos dos países da União Europeia (gráfico 2).

Gráfico 2.

Os dados do Eurostat são claros, não deixam margens para dúvidas e tornam desnecessários os comentários. Em 2006, apenas 46,8% da riqueza criada em Portugal revertia para os trabalhadores que representavam cerca de 84% da população empregada; em 2011, tinha diminuído para 46,3%, e no fim do governo de Passos Coelho/Paulo Portas/troika” tinha-se reduzido para 43,7%, tendo subido em 2017 para 44,3% mas continuando a ser inferior à média da Zona Euro que, em 2017, era 47,5%. Um valor superior ao de 2006, precisamente o contrário do que se verificou em Portugal que diminuiu. Este é também o resultado do “veículo de prosperidade” de que fala Mário Centeno.

A DIVIDA EXTERNA DO PAÍS E DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS CONTINUA A SER ENORME E A CRESCER, QUALQUER SUBIDA DAS TAXAS DE JUROS TEM EFEITOS GRAVES 

O gráfico que a seguir se apresenta, construído com dados divulgados pelo Banco de Portugal, mostra de uma forma clara a enorme divida do nosso país ao estrangeiro. Qualquer subida significativa da taxa de juros terá consequências dramáticas para o país

Gráfico 3.

Este enorme endividamento do país (em 2018, superior em mais de duas vezes ao valor do PIB de Portugal) está associado também a um enorme e crescente endividamento das Administrações Públicas quer total quer ao estrangeiro, como revela o gráfico 4.

Gráfico 4.

Como revelam os dados do Banco de Portugal, a divida total das Administrações Públicas continuou a aumentar com o governo de António Costa/Mário Centeno, embora a divida externa tenha diminuído, mas continuando a ser muito elevada (140.352 milhões € em 2018 ).

PARA CUMPRIR O QUE BRUXELAS EXIGE CORTA-SE NA DESPESA E NO INVESTIMENTO PÚBLICO COM CONSEQUÊNCIAS DRAMÁTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO PAÍS 

O quadro 1, também com dados do Eurostat, mostra a queda significativa, com consequências dramáticas no desenvolvimento do país assim como na prestação de serviços públicos à população (saúde, educação, transportes públicos, ferrovia, segurança social, etc.), pois sem investimento e sem trabalhadores não é possível realizar isso

Quadro 1.

Os dados do Eurostat revelam que se verificou em Portugal uma quebra significativa quer no investimento total (em 2017, menos 20% que a taxa da Zona Euro) quer no investimento público (em 2017, menos 42,3% que a taxa da Zona euro), e na despesa com pessoal da Função Pública, medida em % do PIB, com efeitos graves quer para o desenvolvimento do país quer para suprir as necessidades básicas da população, com consequências graves na vida dos portugueses, sentidas já pela maioria da população. No período 2006/2017, a taxa média anual de crescimento económico foi de 1,04% na Zona euro e de apenas 0,3% em Portugal, o que mostra bem o que é “o euro como instrumento de prosperidade”. E isto tudo também para cumprir a meta de 0% no défice que Mário Centeno tanto se gaba, mas hipotecando o futuro do país e a vida dos portugueses Mas o euro não teve apenas consequências negativas, teve também aspetos positivos para os portugueses como sejam a estabilidade dos preços e da taxa de câmbio, assim como taxa de juros baixos o que tornou o credito acessível a muitos portugueses (muitos certamente ainda se lembram de taxas de inflação e de juros superiores a 20% que “comiam” salários, pensões e poupanças). Mas isso é matéria para outro estudo.


Fonte aqui

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4 pensamentos sobre “O euro de Mário Centeno como “veículo de prosperidade” – O mito e a realidade

  1. O artigo do E. Rosa bate na trave…
    Esclareço que não nutro qualquer simpatia por partidos mas, de facto o Centeno cavalgou bem estes últimos anos… à custa dos do costume, claro está.
    Por outro lado, não sou um nacionalista; prefiro um camponês argentino ou ugandês a um empresário português; o que me permite observar as coisas com alguma distância

    O euro e a UE
    De facto no PC/BE há uma fixação contra o euro e a UE… tal como na LePen e afins. As desigualdades são inerentes ao capitalismo e no caso português o baixo perfil educativo e um empresariato habituado ao favor do Estado e pouco qualificado, marca o crónico subdesenvolvimento, desde há séculos.
    Se as desigualdades aconselhassem a uma moeda própria, no Leste alemão ainda haveria a DDR, a Extremadura espanhola ou a Andaluzia teriam gritado pela independência e Londres autonomizava-se para se libertar do resto da Inglaterra. E, no caso português Freixo de Espada à Cinta ou Penamacor há muito teriam criado a sua moeda, dadas as gritantes desigualdades face às regiões mais ricas de Portugal.
    O que falta na Europa são as solidariedades e as políticas regionais que, contudo, não sáo famosas no seio de cada Estado. Falta um verdadeiro orçamento federal uma dívida pública mutualizada, um salário mínimo único e gente capaz nas estruturas europeias.
    Uma não entrada no euro ou, pior uma saída é um total disparate, embora isso se enquadre nessa coisa que faz rir alguma esquerda europeia (ex. o Die Linke) como a “política patriótica de esquerda”. Oh internacionalismo, estás enterrado há muito…
    Uma moeda própria no caso português seria um retorno ao passado. Sobretudo se o euro estivesse em Espanha; e peço a proteção da minha santa preferida – a N S dos Ateus – para que o euro não rebente e a UE não se desintegre, para que não volte um novo fascismo e novas guerras. Embora a situação não seja famosa – longe disso – por razões económicas e institucionais – do mal o menos, já que ninguém apresenta alternativas e, menos ainda, credíveis, no seio das classes políticas nacionais ou na bruxelense

    Com moeda própria,
    1 – O contrabando tornar-se-ia pujante, discriminando entre os lusos, os que tivessem ou não acesso a euros, e constituir-se-ia certamente um mercado paralelo;
    2 – Os nossos prestimosos empresários saberiam sobrefaturar e subfaturar para guardarem, sobretudo fora de portas as moedas fortes, e daí se voltaria aos desequilíbrios externos que motivaram as intervenções do FMI em 1977 e 1983;
    3 – A inflação surgiria, discriminando, sobretudo os trabalhadores, obrigados a lutar pelo seu nível de vida. E claro, as centrais sindicais saberiam cumprir o seu papel de defensores da viabilidade das empresas e da competitividade do país. E encareceria bens de consumo e de produção importados. Tendo em conta a atividade turística, aí se instituiria uma fonte de moeda forte e de fuga (maior que hoje) de capitais. Sobre o tem, veja-se aqui:
    https://grazia-tanta.blogspot.pt/2018/04/os-capitais-que-fluem-para-offshores.html
    4 – A dívida pública (e a privada) na sua maioria titulada em euros tornar-se ia ainda mais cara, dada a desvalorização deslizante da moeda própria. Embora na “esquerda” portuguesa de perfil trotsko/estalinista se tenha clamado, desde o início da crise, por uma reestruturação da dívida, sem perceberem que ela não é possível, por razões políticas e económicas; e que a dívida é uma forma de captura pelo sistema financeiro. Ver nestas ligações
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/11/reestruturar-divida-publica-nada.html
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/03/porque-nao-e-pagavel-divida-publica.html
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/12/como-o-sistema-financeiro-captura.html
    Chegaram a pedir ao Passos para proceder a uma… auditoria da dívida pública!!! Veja-se aqui:
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/05/a-iac-mandou-toalha-ao-chao.html
    5 – E voltar-se-ia aos cambistas, às comissões para obter moeda estrangeira

    Remunerações
    É verdade que as remunerações em Portugal têm perdido posição face a outros países mormente do Leste e isso tem pouco a ver com ter ou não ter o euro; tem a ver com o aproveitamento da crise para reduzir os rendimentos reais do trabalho em benefício do empresariato luso. Recentemente abordei esse tema aqui:
    https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/11/salario-minimo-instrumento-de-controlo.html
    Mais grave que as perdas nos valores nominais das remunerações foi a utilização da política fiscal. Entre 2010/19 a receita fiscal com o IRS e o IVA, cresceu, cada um 44%, o ISP 51% e as taxas e multas 92%. Entre 2010/17 as remunerações dos empregados cresceram 1.5%. E aqui, o Centeno foi de facto, habilidoso

    Desigualdades
    O quadro abaixo mostra que as desigualdades em Portugal não são muito distintas de outros países europeus – com ou sem euro. O problema é que há, em Portugal, um fundo histórico de maior pobreza e subdesenvolvimento.
    Alemanha 57,2 2002 Grécia 38,8 2009
    57,5 2012 42,4 2014
    China 37,1 2002 Holanda 40,2 2009
    48,4 2013 India 52,9 2002
    Eslováquia 32,8 2010 62,1 2012
    34,3 2014 Irlanda 53,8 2013
    Eslovenia 36,2 2010 Itália 40,4 2000
    48,6 2014 42,8 2014
    Espanha 45,0 2008 Japão 39,3 1999
    52,7 2014 41,0 2014
    EUA 71,5 2007 Luxemburgo 51,3 2010
    77,1 2016 48,7 2014
    França 50,0 2009 Polónia 41,8 2014
    50,6 2014 Portugal 52,7 2010
    Grã-Bretanha 45,0 2000 52,1 2013
    44,3 2008 Suécia 58,6 2002
    48,0 2014 67,0 2007

    A falta de movimentação social
    É evidente que, perante a crise e a atuação da troika, os trabalhadores foram as grandes vítimas e o comportamento da tal “esquerda” ( e do PS) foi de não fazer ondas, dividir e anular a contestação à troika e a moldes democráticos de a organizar, como se pode ver aqui
    http://www.slideshare.net/durgarrai/esta-esquerda-a-tranquilidade-da-direita
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/11/os-movimentos-sociais-e-as-vigarices.html

  2. Em substituição dos números na parte final incluídos atrás (ininteligíveis) no texto – eles são relativos à parcela de riqueza detida pelos 10% mais ricos

    Alemanha 57,2 2002 Grécia 38,8 2009
    57,5 2012 42,4 2014
    China 37,1 2002 Holanda 40,2 2009
    48,4 2013 India 52,9 2002
    Eslováquia 32,8 2010 62,1 2012
    34,3 2014 Irlanda 53,8 2013
    Eslovenia 36,2 2010 Itália 40,4 2000
    48,6 2014 42,8 2014
    Espanha 45,0 2008 Japão 39,3 1999
    52,7 2014 41,0 2014
    EUA 71,5 2007 Luxemburgo 51,3 2010
    77,1 2016 48,7 2014
    França 50,0 2009 Polónia 41,8 2014
    50,6 2014 Portugal 52,7 2010
    52,1 2013
    Grã-Bretanha 45,0 2000
    44,3 2008 Suécia 58,6 2002
    48,0 2014 67,0 2007

  3. Também é minha convicção que se saíssemos da UE e voltássemos a instituir o ‘escudo’ ao fim de um ano os portugueses teriam de levar a carteira atestada para ir comprar caramelos a Badajoz.
    Tudo indica no texto que é isso que o Eugénio Rosa insinua sem o declarar.

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