A Estátua de Sal

Mario Draghi salva-nos das Cassandras

(Nicolau Santos, in Expresso, 12/03/2016)

Depois do patético debate semântico entre o presidente do Eurogrupo e o vice-presidente da Comissão Europeia, Jeroen Dijsselbloen e Pierre Moscovici, com o primeiro a dizer desconhecer a diferença entre “se” e “quando” Portugal teria de aplicar medidas adicionais de austeridade, e o segundo a dizer que viria a Lisboa esclarecer a diferença, o certo é que Moscovici passou por cá e depois de reuniões com Mário Centeno e António Costa (que voltou a garantir que não há qualquer plano B) disse que não discutiu com o Governo português medidas adicionais, remetendo para maio um eventual orçamento retificativo, que na opinião das instituições europeias será inevitável. É espantoso que um orçamento que ainda não foi sequer aprovado pela Assembleia da República mas cujas linhas gerais mereceram luz verde da Comissão e do Eurogrupo seja já considerado por estas instituições como um nado-morto. Mas, como é óbvio, são razões que a razão conhece muito bem.

E a razão que se conhece é que ninguém tem dúvidas de que o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloen, e o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovski, ou seja, a linha dura austeritária que continua a pontificar na Europa, tudo fará para minar a solução governativa portuguesa e para inviabilizar o caminho orçamental que tem vindo a seguir.

A linha dura que continua a pontificar na Europa tudo fará para minar a solução governativa portuguesa e para inviabilizar o caminho que tem vindo a seguir

Por isso, não há dia em que qualquer facto que levante obstáculos à atuação do Governo seja abertura de noticiários televisivos, rádios e jornais. Esta semana foi a Capital Economics, uma consultora financeira, a prever que a agência de rating DBRS ia classificar a nossa dívida como lixo, cortando-nos o acesso ao programa de compra de dívida pública do BCE e levando as nossas taxas de juro para 8%, uma “análise”. É claro que tal “análise” teve de ignorar que em 12 de fevereiro a DBRS disse estar confortável com o rating atribuído a Portugal — “BBB”, acima de lixo —, mantendo a perspetiva “estável”; e que a Moody’s no dia 2 de março elogiou a aprovação do OE-2016, frisando que eliminava o risco político.

A última ‘alegria’ de todos os que querem derrubar a atual experiência governativa foi o facto de o Tesouro ter colocado dívida a cinco e dez anos no mercado a taxas acima das da última emissão (cerca de 0,6 pontos), com uma procura menor. Só que na quinta-feira o Banco Central Europeu anunciou o seu fortíssimo pacote de estímulos à economia europeia. Resultado: as taxas de juro das Obrigações do Tesouro de todos os países da periferia caíram a pique e, no caso português, baixaram para menos de 3%. Conclusão: contra as sete pragas do Egito, rogadas pelas Cassandras austeritárias, eis que surge Super Mario (Draghi) a deitar-lhes por terra as previsões. Mais uma vez. Já é preciso azar…


António Saraiva, o bom patrão

O presidente da CIP deu uma entrevista à Antena 1/“Económico”, onde critica o Governo por tentar impor um salário mínimo de 530 euros e por repor os feriados civis sem compensar as empresas, defendendo ainda o trabalho precário ao desemprego. O trajeto profissional de António Saraiva faz supor que algumas coisas que diz são mais para os associados da CIP do que aquilo que pensa. Mas dando como adquirido que o que disse é mesmo o que pensa, então é de perguntar: o que fez a CIP quando o salário mínimo esteve congelado mais de quatro anos? Protestou publicamente? E o que fez a CIP quando o anterior Governo cortou quatro feriados? Também defendeu compensações para os trabalhadores? Terceiro: o que faz a CIP para travar o trabalho precário? Opõe-se-lhe? É que o desemprego tem vindo a descer mas o trabalho precário a aumentar. As perguntas são, talvez, originais. As respostas é que são seguramente velhas e conhecidas.


O estranho caso do dr. Varela

O dr. Varela foi escolhido pela dra. Maria Luís Albuquerque para liderar a supervisão prudencial do Banco de Portugal, após a implosão do BES. Disse a ex-ministra das Finanças: “A supervisão não poderia ter melhor titular.” Por outras palavras, o até aí titular do cargo, Pedro Duarte Neves, tinha falhado e era substituído pelo Poirot da supervisão. O elogio foi tão entusiástico que o dr. Varela passou a ser considerado o putativo sucessor de Carlos Costa. Mas, no final de 2015, as coisas começaram a correr mal ao dr. Varela. O Banif, onde ele tinha sido administrador em representação do Estado, fechou as portas, sem que o dr. Varela, com o seu olho de águia, tenha evitado a catástrofe. E agora demite-se com estrondo: “Não me identifico o suficiente com a política e a gestão do Banco de Portugal.” Pelo meio, o dr. Costa foi reconduzido. Só uma pergunta: quem é o dr. Varela?


Novo ciclo, grande Presidente

Decididamente, respira-se um novo ar político em Portugal. E não tem só a ver com o facto de haver um Governo do PS apoiado pelas forças à sua esquerda, o que nunca aconteceu em 42 anos de democracia. Essa tendência ficou agora reforçada com a saída de cena de Cavaco Silva e a ascensão a Belém de Marcelo Rebelo de Sousa. Nas intervenções que já fez, bem como nos atos destinados a assinalar a sua tomada de posse, Marcelo distingue-se do seu antecessor pela forma e pelo conteúdo, mas afasta-se igualmente da política seguida nos últimos quatro anos pelo Governo PSD/CDS, ao defender que “finanças sãs desacompanhadas de crescimento e emprego podem significar empobrecimento e agravadas injustiças e conflitos sociais”, bem como um sistema financeiro “que não crie ostracismos ou dependências contrárias ao interesse nacional”. Habemus um grande Presidente!


As

perucas das senhoras em quimioterapia uma

vez por semana fogem para o

cabeleireiro. As donas

calvas

das perucas têm de ser pacientes

sair de lenço à cabeça

(ocultando a alopecia)

passeando o infortúnio até a noite baixar.

Há que dar tempo às perucas. Mais

que nunca estão exaustas da doença prolongada

e não prescindem do ensejo de

lavar e pentear até

se sentirem refeitas. Há que apoiar as perucas

nesta fase complicada. Não é fácil

escutar as donas o dia inteiro a ter

tão maus pensamentos.

 

(João Luís Barreto Guimarães, ‘Balada dos maus pensamentos’, in “Mediterrâneo”, Quetzal, março de 2016)