(Por Soares Novais, in a Viagem dos Argonautas, 17/03/2019)

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 19/03/2019)
O juiz Ivo Rosa decidiu impedir o acesso à sala onde decorrem os interrogatórios da fase de instrução da Operação Marquês aos jornalistas que se tinham constituído assistentes do processo. A decisão foi tomada no dia 12 de Março. De lá para cá, quais foram as reacções das “partes interessadas” no processo?
O esgoto a céu aberto fez primeiras páginas e editorais a queixar-se de ter sido amordaçado? A madraça lançou os talibãs contra o juiz? O caluniador profissional pago pelo Público garantiu que era desta que o povo devia pegar em armas? O império do militante nº 1 do PSD usou o episódio para nos dizer que os socráticos são uma ameaça que urge exterminar? O consiglieri de Estado conseguiu relacionar Ivo Rosa com o todo-poderoso Armando Vara? Manuela Moura Guedes, coiso? Nada de nadinha disso. Reina o mais seráfico dos silêncios. E a explicação é esta:
«A presença de jornalistas na sala de audiência onde os acusados e as testemunhas são ouvidas nesta fase do processo – o momento em que os arguidos apresentam as suas alegações contra os argumentos da acusação de forma a tentarem não ser levados a julgamento – foi questionada pelo Ministério Público que alertou para a postura dos assistentes “que exercem a profissão de jornalistas e que não tiveram, ao longo dos autos e até ao presente, qualquer intervenção na conformação do seu objeto, como se têm feito valer dessa mesma qualidade para terem acesso privilegiado à atividade desenvolvida pelos demais intervenientes processuais que de outro modo lhes estaria vedado, com o único propósito de desenvolver peças jornalísticas acerca dos factos em causa nos mesmos e dos atos processuais aqui praticados”.
Perante esta questão a equipa liderada pelo procurador Rosário Teixeira frisa que “importa, pelo menos, vedar o exercício de uma faculdade processual inerente a esse estatuto de assistente, a de assistir a atos de produção de prova, uma vez que se mostra estar a ser exercida de forma manifestamente desviante da função que lhe é inerente em violação dos normativos processuais penais aplicáveis”.»
Fonte aqui.
Recapitulemos. O mesmo procurador, e respectiva equipa, que em Julho de 2014 – sem arguidos constituídos, sem prévia notícia pública de sequer existir tal investigação judicial – teve engenho e arte para colocar na Cofina informações que pretendiam influenciar a votação para secretário-geral do PS e que se revelariam ser o núcleo principal das suspeitas da Operação Marquês à altura da detenção de Sócrates, ou que teve arte e engenho para não o ter impedido, e que meses depois teve engenho e arte para colocar em diversos órgãos de comunicação social informações a respeito da iminente detenção de Sócrates no aeroporto e sobre os argumentos que seriam usados para o prender, ou que teve arte e engenho para não o ter impedido, e que nos dias, semanas, meses e anos após a detenção de Sócrates teve o engenho e arte de cometer caudalosos e sistemáticos crimes de violação do segredo de justiça, ou que teve a arte e o engenho para não o ter impedido, é a mesma equipa e o mesmo procurador que em Março de 2019 quer impedir os jornalistas de relatarem o modo como Ivo Rosa interroga acusados e testemunhas, e o que testemunhas e acusados declaram no tribunal face a face com o juiz. Estamos perante um fenómeno do Entroncamento?
Estamos perante um fenómeno do emporcalhamento. A fazer fé na lógica, parece lógico que a fantástica equipa do procurador-herói terá ficado muito, mas mesmo muito, desagradada com algumas notícias saídas a respeito do que se está a passar na instrução da Operação Marquês. Mas que terá sido? Por exemplo, terá algo a ver com o testemunho de Vasco d’Orey? Ou com as declarações das testemunhas de Sofia Fava? Ou com a descrição de como Ivo Rosa é exaustivo nos interrogatórios? Ou até do que virá aí a caminho e que pode, finalmente, começar a contar uma outra história sobre o que realmente tem estado em causa neste processo infame?
Realmente, para quem passou os últimos anos a ter um serviço editorial onde apenas certas informações, tratadas de certa maneira, apareciam no espaço público, ainda por cima embrulhadas numa campanha de judicialização da política e de politização da Justiça onde se faz o culto de personalidade e o messianismo de certos magistrados vedetas, qualquer brecha na condenação já transitada em julgado é fonte de pânico para quem construiu o primeiro julgamento político após o 25 de Abril.
E a Cofina et alia? Agradecem, penhorados. É assim que esses bravos “jornalistas” gostam de “investigar”, em monopólio e desfrutando de uma intimidade amorosa com alguns agentes ou funcionários da Justiça (provavelmente, empregados da limpeza) que conseguem entrar nas salas dos impolutos e vigilantes procuradores e depois, com as lanternas dos seus telemóveis baratuchos, darem com aquela papelada (ou já serão disquetes de 3,5 polegadas com estupendos 1.44MB cada?) onde estão as “verdades” sobre esses “corruptos” socialistas que há que denunciar, perseguir, achincalhar e enviar para Évora.
Fonte do artigo aqui
(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 19/03/2019)

A estratégia Trump e a de Bolsonaro foram muito parecidas e não só na tecnologia da reprodução intensiva de mensagens robotizadas: o alvo é o mesmo (fanatizar alguns grupos dominantes, assustar o adversário, mobilizar os deserdados), a abordagem é semelhante (gerar bolsas de ódio) e até os temas são copiados (queremos andar armados, a família está sob ataque por uma “ideologia de género” e os imigrantes ficam com o nosso dinheiro). Desde há muito que eram evidentes estas conexões, que configuram a política suja, e que se nota que a direita portuguesa está fascinada pelo sucesso destas técnicas. Estão agora à vista os primeiros ensaios lusos desta estranha forma de política. Mais, não será André Ventura o mais destacado protagonista da aventura, mesmo que a queira representar, visto que os mais perigosos dos seus praticantes serão gente dos partidos tradicionais da direita.
O primeiro exemplo, mas dele não cuidarei hoje em detalhe, é Nuno Melo a verberar uma transposição de diretiva europeia que limita a posse de armas por particulares. Que alguém não possa ter mais do que 25 armas é uma “grave restrição à liberdade individual e ao direito de propriedade”, diz ele, acrescentando um vicioso e algo estranho ataque às polícias que, segundo o candidato do CDS, “sabem bem onde estão as armas ilegais” (e presumivelmente nada fazem para as capturar). Não é preciso um desenho para se perceber que quer namorar os caçadores para obter votos, mas a escolha de um timing tão funesto para esta defesa da multiplicação das armas – e já há um milhão e meio de armas nas mãos de particulares – só pode parecer de alto risco. O que querem é um tema Bolsonaro e ao candidato falta-lhe pimenta.
O meu segundo exemplo fala por si mas merece mais algum detalhe. É o de Bruno Vitorino, deputado do PSD, que seguiu a cartilha do tema “ideologia de género” como um perfeito Bolsominion, o carinhoso nome dado no Brasil a estas figuras. Primeiro passo: a provocação. Uma sessão de técnicos da Rede ExAequo a convite de uma escola do Barreiro, contra o bullying nas escolas, é uma “PORCARIA”, escreveu.
A coisa teria ficado pelas letras garrafais, mas teve a sorte de duas deputadas do Bloco terem caído na esparrela e, em vez de o criticarem usando o sarcasmo, terem anunciado uma queixa à Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género contra a ofensa.
Antes disso, tudo desfazia a tese da “porcaria”. Este programa de informação já vem do tempo do governo PSD-CDS, a associação em causa é apoiada pelo Conselho da Europa, a escola e os pais gostam das sessões e do cuidado da informação.
No PSD, há uma espécie de corrida à “porcaria”, treinando os Bolsominions disponíveis para se porem na grelha de partida destes temas fascinantes. É que há um “ataque à família”, sentenciou aqui no Expresso o indignado Bruno Vitorino
Mas haver alvos políticos permitiu ao Bolsominion passar à segunda etapa do plano e subir para o patamar superior, com a tese segundo a qual uma certa “ideologia de género”, uma misteriosa conspiração mundial que estabelece o predomínio das mulheres ou que quer transformar toda a gente em homossexual, segundo as versões (no Brasil, Bolsonaro chamava-lhe o “kit gay”), está a perseguir o coitado do Vitorino. A partir daí, foi descabelado: ele, que até tem amigos gays (não têm sempre?) estava a ser atacado por um “protofascismo”, tendo saído em sua defesa um surpreendentemente esbracejante Fernando Negrão, que chegou ao ponto de pedir uma conferência de líderes parlamentares para proteger a nação desta evidente “morte da democracia”.
Mesmo Pedro Duarte, normalmente elegante, foi a um programa de televisão ensaiar uma conversa sobre a “ideologia de género”, essa porcaria que, pelos vistos, contaminaria as nossas crianças com o vírus gay. Até um ex-diretor de jornal sério se misturou com a campanha acerca desta sinistra conspiração planetária da “ideologia de género”. No PSD, há uma espécie de corrida à “porcaria”, treinando os Bolsominions disponíveis para se porem na grelha de partida destes temas fascinantes. É que há um “ataque à família”, sentenciou aqui no Expresso o indignado Vitorino.
A agenda tem, no entanto, dois problemas. O primeiro é que é preciso que o povo e o eleitorado estejam dispostos a estes laivos de excitação. Se estivessem, esta agenda mudaria a política, e a direita precisa mesmo de deslocar a agenda, pois sabe que a discussão sobre pensões, salários, ajudas à banca, saúde e habitação não a leva a lado nenhum. Mas, se as pessoas não estiverem para estas trovoadas de medo, a conversa é só ridícula — e ser ridículo não convém nada a um candidato.
Depois, há ainda um segundo problema, o pior, que é o mal da precipitação e, aí, não perceberam a arte do mestre Bolsonaro. É que é preciso que o medo amadureça, é preciso meses, anos de medo, é preciso muito ódio para que o ódio se torne uma voz. E isto foi tudo feito à pressa, não foi?
Esgrimir a “defesa da família” para tentar um voto religioso, sugerindo o missal e o confessionário para proteger a família em tempos em que Papa Francisco reúne os cardeais no Vaticano para combater a epidemia de casos de pedofilia na Igreja Católica, é simplesmente tosco. E inventar o perigo de uma “ideologia de género” para criminalizar o feminismo ou o combate à homofobia, logo depois de três semanas de show eletrizante de Neto de Moura, com a moca de pregos, a lapidação ancestral das mulheres indignas, os cem mil euros exigidos a cada humorista que o criticou e tudo o mais a impor-se no noticiário nacional e a revoltar Portugal, não é só tosco, é mesmo pateta.
O Bolsominion Vitorino estava treinado no tema, sabia a música e decorou o refrão, estudou como se faz, os comparsas até tentaram salvar o roteiro, mas quanto mais fizeram mais demonstraram o descompasso entre a gritaria e a total indiferença do país perante esta “porcaria”. No entanto, a quem se ri com este fracasso, deixo o alerta: isto vai voltar, com Bolsominions mais habilidosos, mais persistentes, com patranhas mais saborosas, com medos mais medrosos. Bruno Vitorino só mostrou a excitação que vai naquela gente e pôs-se demasiado em bicos de pés. Virão outros e serão mais perigosos.